Começou julgamento do alegado mentor do homicídio de jornalista maltesa
Quase nove anos após o assassinato da jornalista de investigação Daphne Caruana Galizia, começou, em Valletta, o julgamento de Yorgen Fenech, empresário acusado de ser o alegado mentor do crime que, em 2017, expôs fragilidades na protecção da liberdade de imprensa na União Europeia.
O julgamento arrancou no Tribunal Penal de Malta, depois de o Tribunal Constitucional ter rejeitado um pedido de Fenech para suspender o processo. O empresário alegava que o seu direito a um julgamento justo tinha sido violado, numa acção apresentada a 25 de Junho. Embora o tribunal tenha decidido apreciar essa petição, recusou interromper o início do julgamento.
Na sessão marcaram presença o arguido, familiares de Daphne Caruana Galizia, jornalistas malteses e internacionais, bem como representantes da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Para os RSF, o julgamento representa um momento decisivo não apenas para Malta, mas também para o combate global à impunidade nos crimes contra jornalistas. "Quase nove anos após o assassinato de Daphne Caruana Galizia, renova-se hoje a esperança de que a justiça seja finalmente feita", afirmou Pavol Szalai, director do gabinete dos RSF em Praga.
"O julgamento histórico deve revelar a verdade sobre o desprezível complot criminoso e a cadeia de acontecimentos mortíferos que conduziram à execução de uma jornalista no seio da União Europeia", acrescentou.
Segundo o responsável, "pôr fim à impunidade neste caso emblemático europeu daria um impulso à luta pela justiça em todo o resto do mundo".
O homicídio de Daphne Caruana Galizia ocorreu a 16 de Outubro de 2017, quando uma bomba colocada no automóvel da jornalista explodiu perto da sua residência.
Desde então, vários intervenientes no crime foram condenados. Os irmãos Alfred e George Degiorgio confessaram, em 2022, terem colocado e detonado o engenho explosivo. Vincent Muscat, outro dos envolvidos, aceitou colaborar com as autoridades em troca de uma redução da pena, fornecendo informações que contribuíram para a condenação, em 2025, de Robert Agius e Jamie Vella, acusados de terem fornecido os explosivos utilizados no atentado.
Melvin Theuma, apontado como intermediário na preparação do homicídio, recebeu um indulto presidencial em troca de testemunhos que levaram à acusação de Yorgen Fenech. O empresário, cujos negócios foram alvo de diversas investigações conduzidas por Daphne Caruana Galizia, continua a declarar-se inocente.
Restrições à cobertura mediática continuam contestadas
Enquanto aguardava julgamento, Fenech foi libertado sob fiança em Fevereiro de 2025 e conseguiu obter uma ordem judicial que impôs fortes restrições à cobertura mediática do processo.
A decisão foi contestada pelos RSF, que consideram que limita a liberdade de imprensa, e continua a ser objecto de apreciação pelo Tribunal Constitucional maltês.
Daphne Caruana Galizia era uma das mais reconhecidas jornalistas de investigação de Malta, denunciando regularmente casos de corrupção envolvendo figuras políticas e empresariais através do blogue Running Commentary.
O seu assassinato desencadeou uma onda de protestos no país, levou à realização de um inquérito público e aumentou a pressão internacional para a adopção de reformas destinadas a reforçar a independência das instituições e a protecção dos jornalistas.
(Créditos da imagem: Matthew Mirabelli - imagem retirada do site Article 19)