Reportagem do jornal “Folha de S. Paulo” por dentro do regime iraniano
A cobertura realizada pela jornalista Patrícia Campos Mello no Irão, publicada pela Folha de S. Paulo após os recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel, voltou a colocar em debate a realidade política e social do país, bem como a forma como o regime iraniano é percepcionado por diferentes sectores da opinião pública.
Num artigo de análise publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI tem uma parceria, o jornalista Rui Martins destaca o carácter pioneiro da iniciativa da Folha, que enviou a repórter especial ao Irão logo após o agravamento do conflito regional. Durante 12 dias, Patrícia Campos Mello percorreu o país e produziu uma série de reportagens que procuraram retratar o quotidiano dos iranianos, a condição das mulheres, a estrutura de poder e as limitações à liberdade de expressão.
Segundo Rui Martins, a reportagem teve especial relevância por oferecer aos leitores “uma visão neutra, jornalística, de um país sobre o qual se criaram mitos”, num contexto em que o conflito militar tem dificultado uma análise mais equilibrada do regime iraniano.
Direitos das mulheres no centro da discussão
Um dos temas que mais reacções gerou foi a situação das mulheres no Irão. Durante uma entrevista ao portal UOL, citada por Rui Martins, Patrícia Campos Mello afirmou que o país continua a impor restrições significativas aos direitos femininos.
“É um governo que oprime as mulheres”, declarou a jornalista, recordando igualmente os protestos desencadeados em 2022 após a morte da jovem curda iraniana Mahsa Amini, detida pela polícia moral por alegado incumprimento das regras de utilização do hijab.
A repórter acrescentou que “não é super tranquilo ser mulher no Irão, existem muitas leis, como no divórcio, que são repressivas”.
Limitações à liberdade de imprensa
Outro dos aspectos destacados pela reportagem foi a situação da liberdade de imprensa no país. Segundo Patrícia Campos Mello, o trabalho jornalístico foi condicionado por restrições impostas pelas autoridades iranianas e pelo receio de represálias: “Havia muitas restrições para fazer a reportagem, lá não existe liberdade de imprensa”, afirmou.
A jornalista revelou ainda que a redacção da Folha de S. Paulo optou por adiar a publicação de alguns dos conteúdos mais sensíveis até ao seu regresso ao Brasil. Entre os temas temporariamente retidos estavam reportagens sobre censura, controlo da internet e direitos das mulheres.
“Enquanto eu estava lá, fui alertada por alguns recados recebidos, que me deixaram preocupada, pois não estava acostumada com isso, quando publiquei sobre a inflação e a vida difícil das pessoas”, explicou.
“Diante disso é que decidimos segurar os textos mais sensíveis. Eu fiquei com medo, é um país em guerra e não é um país democrático”, acrescentou.
Guerra reforça patriotismo e apoio ao regime
A reportagem procurou igualmente avaliar os efeitos da guerra na opinião pública iraniana. Questionada pelo jornalista Josias de Souza sobre o impacto do conflito no apoio ao regime, Patrícia Campos Mello considerou que a ofensiva militar teve o efeito contrário ao pretendido pelos seus promotores.
“A tentativa de mudança de regime pelo regime Trump saiu pela culatra”, afirmou.
Segundo a jornalista, a guerra contribuiu para reforçar sentimentos de patriotismo e nacionalismo entre uma parte significativa da população. “Essas pessoas estão muito mobilizadas, a guerra incentivou o patriotismo e o nacionalismo”, declarou.
Ao mesmo tempo, observou que existe uma parcela da sociedade crítica do regime, embora receosa de se manifestar num contexto de conflito armado. “Ainda que essas pessoas sejam contra o governo não irão apoiar os EUA e pedir para que venham ajudar”, sublinhou.
Debate sobre a natureza do regime
No seu artigo, Rui Martins observa que a cobertura da Folha contribuiu para reabrir o debate sobre a natureza do sistema político iraniano.
O autor argumenta que parte da discussão pública tende a enfatizar a existência de eleições e a importância geopolítica do Irão enquanto membro dos BRICS e actor relevante do chamado Sul Global, relegando para segundo plano as características teocráticas do regime.
Recorda que vários especialistas têm chamado a atenção para a concentração de poder nas estruturas religiosas do Estado e para o papel central desempenhado pelo Líder Supremo, figura que detém amplas competências políticas, militares e religiosas.
Internet bloqueada há mais de 80 dias
A situação da liberdade digital foi outro dos aspectos abordados. Segundo Rui Martins, o país enfrentou uma interrupção prolongada do acesso à internet, considerada uma das mais longas já registadas a nível internacional.
O bloqueio, que ultrapassa os 80 dias, limitaou a circulação de informação e dificultou o acesso dos cidadãos a plataformas independentes de comunicação.
Para o autor, os testemunhos recolhidos por Patrícia Campos Mello ajudam a compreender as múltiplas dimensões da realidade iraniana, oferecendo um retrato mais complexo de um país frequentemente analisado através de perspectivas ideológicas ou geopolíticas.
(Créditos da imagem: Pexels)