Um artigo do Reuters Institute mostra um pouco da realidade vivida por jornalistas na Etiópia. No final de Janeiro, relatos de ataques com drones e novos confrontos entre as forças governamentais etíopes e combatentes tigrínios reacenderam o receio de um regresso à guerra em grande escala. Voos para o Norte da Etiópia foram cancelados, as tensões agravaram-se antes das eleições nacionais de Junho, e voltou a discutir-se um problema que já tinha marcado o conflito anterior: o papel da desinformação num país onde, como mostra o trabalho dos verificadores de factos da organização HaqCheck, uma mentira pode custar vidas. 

Entre 2020 e 2022, a Etiópia viveu uma guerra civil entre o governo federal e as forças da região norte de Tigray, que provocou centenas de milhares de mortos e uma grave crise humanitária. Durante o conflito, o fluxo de informação colapsou quase por completo: a internet e as linhas telefónicas foram cortadas, as principais estradas encerradas, e o jornalismo independente foi amplamente impedido de actuar. Ainda assim, imagens de violência continuaram a circular online, muitas vezes descontextualizadas. 

Rehobot Ayalew, então chefe de verificação de factos da HaqCheck — organização acreditada pela Rede Internacional de Verificação de Factos (IFCN) —, recorda que o trabalho da equipa se resumia à análise de imagens e vídeos: "era tudo o que tínhamos." Inclusivamente, um falso rumor sobre um avanço rebelde levou uma comunidade inteira a fugir de casa. "A maioria das pessoas fugiu das suas casas", contou Ayalew, "e sofreu durante meses, embora na verdade tudo estivesse bem". 

Numa nação com mais de 130 milhões de habitantes, Ayalew estima que era uma das menos de dez pessoas dedicadas a tempo inteiro à verificação de factos. 

Trabalhando em Adis Abeba, Ayalew e a sua pequena equipa monitorizavam diariamente o fluxo de redes sociais, recorrendo a pesquisas inversas de imagem, análise de metadados e contacto esporádico com fontes. Grande parte do material analisado incluía imagens recicladas de outros conflitos, ganhos territoriais fabricados e propaganda destinada a alimentar o medo entre grupos étnicos. 

Um dos casos mais graves envolveu um professor universitário cuja etnia foi falsamente associada, no Facebook, a uma alegada lealdade política, o que gerou uma onda de publicações de ódio. O professor acabou assassinado à porta de casa, e a família processou a Meta por omissão, apesar de repetidos avisos. Para Ermias Mulugeta, editor de investigação da Inform Africa (organização responsável pela HaqCheck), este episódio mostra que "a desinformação já ceifou a vida a muitos etíopes. É por isso que a verificação de factos é crucial aqui." 

Um dos ambientes mais difíceis do mundo para o jornalismo 

Segundo Muthoki Mumo, coordenadora para África do Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ), a Etiópia tornou-se "um dos lugares mais difíceis para o jornalismo independente em África", sobretudo para quem cobre conflitos ou temas politicamente sensíveis. 

Em Fevereiro, a Autoridade de Comunicação Social da Etiópia recusou renovar a acreditação de três jornalistas da Reuters e revogou as credenciais da agência para cobrir a cimeira da União Africana, dias depois de a agência ter publicado uma investigação sobre o alegado papel etíope no conflito do Sudão. Um jornalista da AFP foi ainda impedido de embarcar num voo para Tigray. 

O censo prisional do Comité para a Protecção dos Jornalistas, de Dezembro de 2025, coloca a Etiópia entre os países africanos que mais jornalistas mantêm detidos — vários deles acusados de terrorismo pela cobertura do conflito na região Amhara. O CPJ documenta também pelo menos 54 jornalistas e profissionais de media forçados ao exílio desde 2020, um êxodo que, segundo Mumo, "reflecte a gravidade da pressão que os jornalistas enfrentam e a falta de protecção jurídica significativa" nos seus países de origem. Vários repórteres foram mortos a tiro nos últimos anos, incluindo Dawit Kebede Araya, da Tigrai TV, e Sisay Fida, da Oromia Broadcasting Network. 

O paradoxo do alcance 

Apenas cerca de 21% da população etíope tem acesso à internet, concentrado nas zonas urbanas, mas isso não impede que a desinformação chegue ao resto do país. "O que circula nas redes sociais chega mesmo às zonas rurais que não têm acesso", explica Ayalew, através de anciãos de aldeia, líderes religiosos e reuniões comunitárias, onde um boato nascido no Facebook em Adis Abeba pode chegar, dias depois, a centenas de quilómetros de distância, já transformado. 

As verificações de factos da HaqCheck, publicadas em inglês e amárico, atingem sobretudo um público urbano, instruído e já cético. "Não eram os que estavam a ser desinformados em primeiro lugar", nota Ayalew. Em contextos tão polarizados, corrigir uma informação falsa nem sempre resolve o problema: quando a equipa contestava alegações de um dos lados do conflito, os apoiantes desse lado interpretavam frequentemente a correcção como prova de parcialidade. "Questiono se a verificação de factos por si só minimiza realmente os danos no nosso contexto", admite Ayalew. "Às vezes, parece que estamos a trabalhar no vácuo." 

O impacto psicológico 

A transparência foi a principal defesa da equipa: cada verificação incluía uma explicação detalhada da metodologia, das fontes e do raciocínio usado. Ainda assim, isso não travou as críticas. Verificar imagens atribuídas ao governo gerava acusações de simpatia por parte de grupos rebeldes; verificar alegações ligadas a movimentos armados de oposição desencadeava o inverso. "Não havia forma de vencer", resume Ayalew. "Se verificasse um lado, o outro lado atacava-o." Segundo Mulugeta, "uma vez rotulado, não tem hipótese de se explicar", e esse rótulo transformava-se muitas vezes em assédio online persistente, capaz de atingir também familiares. 

Ayalew, a única mulher a apresentar regularmente o programa de verificação de factos da HaqCheck no YouTube, enfrentou ainda um tipo de ataque distinto do dos colegas homens: comentários sobre a sua aparência, críticas por falar de política e referências sexuais grosseiras. Para ela, foi a primeira vez que teve contacto prolongado com violência de género facilitada pela tecnologia: "isso abriu-me os olhos. É isto que acontece quando as mulheres se tornam visíveis." 

O impacto psicológico deste trabalho permanece amplamente ignorado. Segundo Ayalew, a saúde mental é, na Etiópia, tratada como tabu ou como um luxo dispensável. Durante a guerra, chegou a perder dez quilos e a acreditar que estava fisicamente doente, antes de procurar ajuda numa clínica psiquiátrica. Pouco depois, demitiu-se. Conhece um ex-colega que desenvolveu alcoolismo e outro jornalista que tentou suicidar-se. Mulugeta afirma ter tentado, sem sucesso, conseguir apoio psicossocial gratuito para a sua equipa: "sabemos que os jornalistas em qualquer parte do mundo estão na linha da frente, e os verificadores de factos também." 

Ao medo de adoecer soma-se o medo da repressão. "Serei o próximo?", questiona Ayalew. "Não sabemos ao certo. Não sabemos a quem podemos desagradar no exercício da nossa profissão." O próprio Mulugeta chegou a abandonar o jornalismo por exaustão, antes de regressar meses depois. 

Quando as plataformas se retiram 

O Facebook continua a ser o principal canal de desinformação no país, com o Telegram, o YouTube e, mais recentemente, o TikTok também a ganharem peso. Estas plataformas têm falhado frequentemente na moderação por não compreenderem línguas ou contextos locais. "O Facebook não conhece a língua local da Etiópia", explica Mulugeta, "por isso permite que estas palavras depreciativas permaneçam na plataforma durante um longo período de tempo". 

A relação com a Meta melhorou brevemente após o processo judicial relacionado com o assassinato do professor universitário, com a empresa a apoiar acções de literacia mediática. Mas quando a Meta anunciou o fim da verificação de factos por terceiros, o golpe foi duro. "Pareceu uma traição", disse Ayalew, recordando que a empresa lhes tinha garantido que o seu trabalho influenciava decisões de moderação: "deu-nos esperança. Agora, essa esperança desapareceu." Como resume Mulugeta, "estamos a criar uma sociedade que tende a acreditar mais nas redes sociais do que nos media tradicionais. Isso suprime o impacto da verificação de factos." 

Barreiras financeiras que dificultam o trabalho 

A tudo isto soma-se um sistema financeiro etíope particularmente restritivo, com controlos cambiais rigorosos que tornam proibitivas ferramentas como imagens de satélite ou plataformas de verificação. "Mesmo quando fazemos monitorização das redes sociais", diz Ayalew, "fazemo-lo principalmente manualmente, porque não conseguimos pagar pelas ferramentas". A própria Inform Africa está actualmente "paralisada" por restrições financeiras, segundo Mulugeta, que descreve a verificação de factos como "o departamento mais negligenciado. Mas é o mais crucial." 

Ayalew saiu entretanto da HaqCheck e fundou a Niqu Ethiopia, uma consultora dedicada à literacia mediática, com o objectivo de capacitar jornalistas, influenciadores, estudantes e líderes comunitários a reconhecer manipulação antes de esta se espalhar. Para ela, a verificação de factos, apesar de essencial, "não é uma solução a longo prazo". Grande parte da desinformação tem raízes em divisões políticas e étnicas mais profundas: "se a nossa política não for curada, o nosso ecossistema de informação continuará tóxico." 

Já Mulugeta continua no jornalismo, apesar das dificuldades económicas da profissão. "Adoro jornalismo. Adoro como damos voz aos que não têm voz", diz. O seu conselho para quem está a começar na área é que "devem estar preparados para tudo. Este trabalho está repleto de dificuldades e incertezas." Ainda assim, insiste: "não há um caminho fácil nesta profissão. Mas o trabalho importa." 

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