“No Líbano, os profissionais da imprensa desempenham uma missão crucial ao reportar sobre a guerra em curso na região. Restringir o acesso dos jornalistas ao terreno equivale a apagar as luzes”, alerta Jonathan Dagher, chefe da secção do Médio Oriente da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). A afirmação ilustra a situação delicada em que se encontram os jornalistas no país, expostos a ataques aéreos e cada vez mais limitados no acesso às zonas de conflito. 

A intensificação da ofensiva israelita em resposta aos ataques com mísseis do grupo pró-Irão Hezbollah tornou o trabalho jornalístico ainda mais perigoso. Recentemente, o correspondente do jornal Al Akhbar, Haitham al-Mousawi, quase foi morto enquanto cobria os danos de um edifício atingido por bombardeamentos. “Fui atingido por estilhaços e tive de ser hospitalizado. O edifício foi atingido uma segunda vez. Este é um padrão que já ceifou a vida de jornalistas na Faixa de Gaza”, contou o fotojornalista. 

O perigo de ataques repetidos também atingiu Mazen Ibrahim, chefe da sucursal da Al Jazeera, e Aly al-Ahmar, correspondente da Al Mayadeen, enquanto trabalhavam na Ponte Qassimiye, no sul do país. Edmond Sassine, correspondente do canal Al Araby, acrescenta: “Um dia, fui cobrir um ataque e, 40 minutos depois, houve outro mesmo ao nosso lado, sem qualquer aviso. É realmente perigoso”. 

Segundo Elissar Kobeissi, correspondente dos RSF no Líbano, a intenção é clara: “Os ataques estão planeados para ocorrer muito perto dos jornalistas, impedindo-os de se aproximarem.” 

Restrições de acesso e acusações de cumplicidade 

Além dos ataques, os jornalistas enfrentam barreiras impostas por governos locais e pelo Hezbollah. Para actuar no Sul do Líbano, é necessário obter permissões do governo e do exército libanês, bem como autorizações do Hezbollah, que recentemente proibiu toda a filmagem em áreas sob seu controlo. Um jornalista explicou sob anonimato: “É difícil saber se são instruções oficiais ou simplesmente actos de intimidação a nível individual.” 

Alguns municípios do Sul, como Marjayoun, Qlayaa e Rachaya el-Foukhar, também proibiram ilegalmente a entrada de jornalistas. “O Hezbollah acusa os jornalistas de fornecerem informações ao exército israelita, e as pessoas pensam que estamos a fornecer informações ao Hezbollah”, resume Arthur Sarradin, correspondente do Libération, da Radio France e do canal LCI no Líbano. “Sugere-se que o trabalho jornalístico seja uma arma de guerra, propaganda, em vez de um meio de fornecer notícias.” 

Apesar das dificuldades, há regiões onde o trabalho jornalístico continua relativamente normal. “Não tive qualquer problema em Tiro. As pessoas são receptivas, confiam em nós e tenho os meus contactos”, afirma Sassine. No entanto, outros colegas enfrentam dificuldades significativas noutras áreas do Sul do país. 

A situação evidencia a vulnerabilidade dos jornalistas num conflito cada vez mais polarizado, em que restrições, ataques deliberados e suspeitas de cumplicidade transformam o trabalho de reportagem num exercício de alto risco. Como destaca Dagher, “só em 2024, sete repórteres foram mortos pelo exército israelita no contexto da guerra em Gaza. Isto não pode voltar a acontecer. Os jornalistas não são armas de guerra — devem poder trabalhar com total liberdade e segurança.” 

(Créditos da imagem: RSF)