Um novo relatório sobre diversidade nas redacções televisivas do Reino Unido conclui que jornalistas de minorias étnicas continuam amplamente excluídos de posições de liderança editorial, apesar dos programas de inclusão implementados nos últimos anos pelas principais emissoras. 

O estudo, encomendado pelo Sir Lenny Henry Centre for Media Diversity, baseia-se num inquérito a 80 jornalistas e entrevistas complementares e foi co-assinado por Rohit Kachroo, editor de segurança global da ITV News, e por Ellie Tomsett, professora sénior de media e cinema na Birmingham City University. 

As conclusões sugerem que, embora as organizações tenham aumentado o recrutamento de profissionais de origens diversas, a diversidade não se traduziu em acesso real ao poder editorial. 

Segundo o relatório, a diversidade foi “realizada em vez de incorporada”, deixando muitos jornalistas de minorias étnicas com a sensação de que continuam afastados dos cargos de decisão. 

Para muitos profissionais entrevistados, os esforços de inclusão não resultaram em progressão na carreira. Pelo contrário, alguns relatam frustração crescente e até abandono do sector. Ao mesmo tempo, alguns jornalistas dizem enfrentar uma reacção negativa por parte de colegas que consideram que as iniciativas de diversidade lhes retiraram oportunidades. 

Vários participantes afirmaram também que os programas de inclusão acabaram por criar um estigma adicional, levando colegas a assumir que foram contratados apenas para cumprir quotas. “As pessoas presumem que foste contratado por diversidade, quando na verdade estás ali pelo teu trabalho árduo e mérito”, disse um dos entrevistados. “É uma faca de dois gumes.” 

A segregação na redacção 

Alguns testemunhos descrevem redacções com uma clara divisão entre níveis hierárquicos. “É como uma redacção segregada”, disse um jornalista participante no estudo. “Olha-se para um lado e há um número desproporcional de pessoas [de minorias], porque todas estão nos escalões mais baixos. E olha-se para o outro lado e é como se quase todos fossem brancos.” 

Outro jornalista sénior afirmou que a situação afecta também a qualidade editorial. “Trabalho para uma das maiores emissoras de notícias do Reino Unido. Não só os jovens talentos diversificados estão a sair, como há uma falta flagrante de diversidade e variedade na produção editorial.” 

Os dados recolhidos indicam que as dificuldades vão além da progressão na carreira. 

Entre os jornalistas inquiridos: 

  • 63% afirmaram ter sofrido racismo no local de trabalho; 
  • 70% disseram que não existem oportunidades suficientes de progressão profissional. 

Vários entrevistados apontaram também barreiras estruturais que impedem a ascensão a cargos mais influentes. 

“Não podemos tornar-nos editores, editores políticos ou mesmo editores do Médio Oriente”, afirmou um dos jornalistas. “O sistema ainda está distorcido para que possamos aspirar apenas a cargos de segundo nível.” 

Reacção às políticas de diversidade 

O relatório identifica igualmente um aumento da resistência interna a iniciativas de diversidade, que em alguns casos se manifesta de forma aberta. 

Para os autores do estudo, o problema não reside nas políticas de diversidade em si, mas na forma como foram implementadas. Kachroo e Tomsett alertam que, sem mudanças estruturais, os programas correm o risco de se tornar “simbólicos em vez de transformadores”. 

Entre as recomendações apresentadas está a avaliação independente das políticas de diversidade implementadas nos últimos cinco anos e um maior envolvimento dos jornalistas no compromisso de transformar verdadeiramente as estruturas das redacções.

(Créditos da imagem: Unsplash)