Num mundo marcado por um grande número de conflitos, a atenção mediática permanece concentrada apenas em alguns cenários. Em 2025, havia 59 conflitos entre Estados, “o número mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial”, mas, fora da Ucrânia e do Médio Oriente, a maioria passa despercebida ao grande público. 

Para vários jornalistas africanos, esta ausência de visibilidade resulta de uma combinação de factores económicos, políticos e culturais. Samuel Getachew recorda ao Instituto Reuters que, no início da sua carreira, ouviu de um editor que a sua reportagem era “demasiado marginal”, porque os leitores “não estavam interessados na Etiópia”. Embora rejeite explicações simplistas, reconhece o peso das “pressões financeiras” nas decisões editoriais. 

Os dados confirmam esta desigualdade. Uma análise conclui que “a cobertura mediática reflecte frequentemente uma perspectiva limitada, moldada mais pela importância geopolítica do que pela urgência humanitária”. Existem mais de “1600 artigos por cada morte de civis” em países de rendimento elevado, contra apenas 17 nos países mais pobres. 

Esta lógica traduz-se numa hierarquia de visibilidade que deixa muitas crises praticamente ignoradas. Em 2024, várias situações de deslocamento forçado receberam cobertura “insignificante”, apesar de envolverem milhões de pessoas. Em muitos casos, sobretudo em África, os conflitos prolongados são tratados de forma abstracta, sem foco nas histórias individuais. Como observa Getachew, enquanto na Ucrânia “conhecemos as pessoas”, noutros contextos é necessário “dar-lhe realmente um nome, um rosto”. 

A própria natureza dos conflitos também influencia a cobertura. Guerras entre Estados tendem a receber mais atenção do que conflitos internos, por serem vistas como mais relevantes para a estabilidade global. Pelo contrário, “os conflitos em regiões com menor influência económica são mais susceptíveis de serem ignorados, independentemente da sua gravidade”. 

Outro obstáculo significativo é a repressão à liberdade de imprensa. No Burquina Faso, um jornalista descreve um ambiente em que “é realmente, realmente, realmente arriscado” exercer a profissão. Em temas sensíveis, “se for algo relacionado com a segurança ou a luta contra o terrorismo, se não estiveres a elogiar o governo, é melhor calares-te". Estas limitações dificultam tanto a produção de informação local como a sua difusão internacional. 

A percepção de proximidade cultural continua igualmente a pesar. Conflitos em países considerados mais próximos do público ocidental tendem a receber maior destaque. Como sintetiza um jornalista burquinabê, “o que está a acontecer em Kiev [é visto] como mais próximo do que o que está a acontecer em Uagadugu”. 

Para Lydia Namubiru, editora de uma publicação pan-africana, é urgente rever estas prioridades. “A população de Nova Iorque não é o único público” dos grandes meios, afirma, defendendo uma abordagem mais inclusiva. Ainda assim, reconhece o dilema central: “Temos de manter duas ideias contraditórias na nossa cabeça. Sim, não deveria importar. Mas, na verdade, importa.” 

Entre as soluções apontadas estão o reforço de parcerias com jornalistas locais e uma cobertura mais humanizada, centrada nas pessoas e não apenas nas estatísticas. No entanto, persistem obstáculos, desde a desconfiança em relação a repórteres locais até à falta de recursos. 

No fundo, a questão não é apenas editorial, mas estrutural. Melhorar a cobertura dos conflitos esquecidos exige investimento, mudança de mentalidades e uma redefinição do que é considerado relevante. Como resume Namubiru, “custa muito dinheiro, mas errar também custa”. 

(Créditos da imagem: Unsplash)