Os meios de comunicação de serviço público na Suécia enfrentam um período de crescente fragilidade, apesar de continuarem a ser reconhecidos como actores centrais na informação da população e na defesa civil do país. Um conjunto de reformas recentemente aprovadas, aliado a um modelo de financiamento considerado insuficiente, está a gerar fortes preocupações quanto à capacidade futura da rádio e da televisão públicas suecas cumprirem a sua missão.

A nova lei de reforma da radiodifusão pública, apresentada pelo governo liberal-conservador com o apoio da extrema-direita e aprovada pelo Parlamento a 22 de Outubro, entrou em vigor a 2 de Dezembro. O diploma reafirma o papel “central” da Sveriges Television (SVT), da Sveriges Radio (SR) e da Utbildnings Radio (UR) na difusão de informação e conhecimento, inclusive em contextos de crise e de alerta elevado. No entanto, a mesma reforma tem sido amplamente criticada pelo seu impacto financeiro. 

O orçamento previsto para um período de oito anos é significativamente inferior ao solicitado pelas três emissoras públicas. A Sveriges Radio estima que poderá enfrentar um défice acumulado de até 3,4 mil milhões de coroas suecas (cerca de 310 milhões de euros) até 2033, caso os custos com salários e distribuição continuem a aumentar. Para a directora-geral da SR, Cillia Benkö, o modelo de financiamento proposto põe em risco tanto a diversidade jornalística como o papel da rádio pública na defesa civil. 

As consequências já começaram a fazer-se sentir. Em 2024, a Sveriges Radio suprimiu 160 postos de trabalho, num universo de cerca de dois mil trabalhadores, e novas demissões e cancelamentos de programas são esperados se não houver financiamento adicional. A administração alerta que os investimentos exigidos para reforçar a redundância digital e a transmissão analógica estão a ser feitos à custa dos recursos destinados ao jornalismo. “No entanto, de nada adianta ter boa tecnologia, uma rede terrestre funcional e locais de transmissão seguros se não tivermos redacções suficientemente robustas para produzir conteúdo”, admitiu Cillia Benkö. 

Pela primeira vez na história sueca, não foi possível alcançar um consenso político alargado sobre o financiamento da radiodifusão pública. Para Ester Pollack, professora de ciências da comunicação em Estocolmo, a reforma traduz uma vontade política clara de enfraquecer os media públicos. A académica recorda que grupos de reflexão próximos do Partido Conservador e da extrema-direita chegaram a propor a extinção da emissora educativa UR e a fusão da SVT com a SR, acompanhadas de cortes orçamentais drásticos. 

Outros aspectos da reforma também suscitam apreensão, nomeadamente a imposição de limites à produção de conteúdos escritos e a pressão para reduzir a presença das emissoras públicas nas redes sociais. Segundo os críticos, estas medidas restringem o alcance do serviço público e favorecem as grandes plataformas tecnológicas. 

A multiplicação de auditorias destinadas a avaliar a “imparcialidade” dos media públicos é igualmente vista como problemática. Embora a confiança dos cidadãos permaneça elevada — 73% no caso da SVT e 71% na SR —, responsáveis e especialistas alertam que investigações politicamente motivadas podem fragilizar a percepção da independência editorial.

(Créditos da imagem: JEPPE GUSTAFSSON/SHUTTERSTOCK/SIPA - imagem retirada do site do Le Monde)