O dilema dos jornalistas sírios entre o exílio e o regresso ao país
Após quase 14 anos de guerra civil, a queda repentina do presidente sírio Bashar al-Assad, em Dezembro, abriu a possibilidade de centenas de jornalistas exilados regressarem ao seu país de origem.
Para Ahmad Primo, jornalista sírio que passou pelas prisões tanto do regime como do Estado Islâmico, a ideia de regressar é simultaneamente tentadora e arriscada. “Se eu fosse solteiro, voltaria e juntar-me-ia aos que lutam pelo futuro da Síria”, disse, em entrevista ao Comité para Protecção de Jornalistas (CPJ). Vive actualmente na Noruega com a esposa e os filhos e, por isso, diz que não pode “arriscar o seu futuro”.
Impedido de voltar devido ao seu passaporte norueguês, Ahmad Primo continua a trabalhar como investigador numa plataforma noticiosa local, ao mesmo tempo que dirige a sua própria iniciativa árabe de verificação de factos, a Verify-Sy.
Após 54 anos de domínio da família al-Assad, muitos jornalistas sírios no exílio sentem um impulso para usar as suas competências na promoção da verdade e no desenvolvimento de um jornalismo livre na Síria. Contudo, como explica o CPJ, “as complexas obrigações legais e familiares, as preocupações com a segurança e as tensões sectárias significam que o regresso permanente raramente é uma opção. Alguns fazem viagens irregulares para informar e formar outros jornalistas, mas arriscam-se a perder o bilhete de regresso à Europa sem a cidadania europeia”.
Alguns, ainda assim, arriscam. Num vídeo publicado no Facebook, o jornalista Besher Kanakri surge em frente ao sinal de chegada do aeroporto de Damasco. “Estou a regressar à minha terra natal após sete anos de ausência forçada”, anuncia. Após anos a trabalhar para a Syria TV, com sede em Istambul, a partir da Alemanha, Kanakri aceitou uma transferência para a capital da Síria: “O nosso país precisa de nós e temos de regressar para contribuir para a sua reconstrução. Os riscos são significativos, mas eu ainda quero voltar”.
A Síria permanece, no entanto, um dos países mais perigosos do mundo para jornalistas. Desde 2011, pelo menos 145 profissionais de comunicação foram mortos, segundo dados do CPJ, que continua a investigar centenas de desaparecimentos e assassinatos. O país liderou o Índice Global de Impunidade 2023 do CPJ, que mede os locais onde os assassinos de jornalistas têm maior probabilidade de sair em liberdade.
Yahya Alaous, 52 anos, vive em Berlim e trabalhou como repórter sobre a vida dos refugiados para vários órgãos de comunicação alemães. Mas depressa se sentiu limitado pela forma como era retratado. “Sempre que havia um ataque terrorista, sentia que tinha de me defender — explicar que não somos todos iguais”, relatou.
Ainda assim, optou por permanecer na Alemanha, privilegiando o futuro dos filhos. Continua a escrever sobretudo para meios árabes, mantendo uma rede de contactos que lhe permite reportar sobre o que se passa na Síria.
O receio do futuro
As preocupações com a segurança são agravadas para jornalistas pertencentes a minorias religiosas e étnicas. Embora cerca de 70% da população síria seja sunita, o restante compõe-se por xiitas, cristãos, drusos, ismaelitas e alauítas — estes últimos, ligados à família Assad.
O novo governo, liderado pelo grupo islamista Hayat Tahrir al-Sham (HTS), de orientação sunita e com raízes na Al-Qaeda, afirma pretender “uma Síria para todos os sírios” e promete não perseguir jornalistas. Ainda assim, têm-se registado relatos de prisões, agressões e intimidações.
A jornalista Amloud Alamir, exilada na Alemanha, hesitou em regressar. “Foi um momento surpreendente quando percebi que o regime de Assad tinha caído”, contou. “Também tinha medo do que poderia vir a seguir. Pensei que haveria caos, ou que milícias islâmicas radicais poderiam tomar o poder”.
Numa visita de reportagem à Síria, 14 anos depois da fuga, encontrou um país fragmentado. “Ninguém me vê como Amloud”, lamentou, referindo-se à forma como foi imediatamente identificada pela sua origem sectária.
Apesar do desejo de regressar, mantém-se realista: “Fica em Damasco se quiseres ser feliz. Mas se quiseres ver a realidade, tens de ir a outro lado, como Latakia”, afirmou, evocando os massacres ali ocorridos em Março, onde mais de 1300 civis alauítas foram executados.
As divisões entre os que ficaram na Síria e os que partiram são profundas. “Já não somos vistos como jornalistas sírios por quem está dentro do país”, afirma Alaous. “Acham que não sofremos como eles... Alguns até nos consideram traidores, porque vivemos no estrangeiro enquanto eles suportaram as dificuldades”. Insiste que a partida não foi uma escolha, mas sim uma obrigação.
Para Carola Richter, professora de comunicação na Universidade Livre de Berlim, é fundamental o desenvolvimento de meios de comunicação nacionais credíveis. “As pessoas querem transparência sobre quem está por detrás da informação, para saber se podem confiar nela”, explicou. “Os meios exilados não são a solução ideal”.
Richter descreve o momento actual como uma mistura de “esperança, entusiasmo, medo e cansaço” entre os jornalistas sírios. “Muitos sentem-se desiludidos com o jornalismo no exílio, mas não têm a certeza se o regresso lhes permitirá servir a sua comunidade ou se os colocará em risco”.
A plataforma Amal Berlin, composta por jornalistas sírios no exílio, prepara-se para canalizar parte dessa energia através de uma escola de verão de jornalismo e verificação de factos na Síria.
Julia Gerlach, jornalista alemã fundadora da plataforma em 2016, afirma: “A queda do regime de Assad criou uma necessidade de acção entre os sírios no exílio”.
Um jornalista sírio, que preferiu manter o anonimato por razões de segurança, descreveu ao CPJ a sua experiência em Damasco, onde trabalha como fixer para meios internacionais e organiza formações gratuitas com colegas exilados. “Os sírios sortudos puderam fugir e ter uma vida melhor e educação, e agora é altura de retribuírem”, disse.
“Temos lutado contra a propaganda e a desinformação durante a guerra e tem sido sempre difícil obter notícias verificadas. Estou a tentar transferir para o meu povo o que aprendi na última década a trabalhar com meios internacionais”, afirmou.
O seu principal objectivo é viajar pela Síria e dar seminários “sem parar”: “É muito importante para mim dar algo a alguém — e ainda mais quando esse alguém é o meu povo”.
(Créditos da imagem: fotografia retirada do site do CPJ)