O desafio ético das fontes no jornalismo
Com o avanço das ferramentas digitais, os jornalistas nunca tiveram tantos meios para procurar a verdade como agora. No entanto, estas mesmas ferramentas também multiplicam as formas de perder a confiança do público. Este é o ponto de partida de um texto publicado no Columbia Journalism Review.
A relação entre jornalistas e fontes encontra-se no cerne da prática jornalística. É, por isso, uma relação sujeita a controvérsias e exigências éticas. Estas questões, apesar de não serem novas, assumem uma urgência particular no contexto actual, marcado pela proliferação de desinformação online e pela emergência de conteúdos gerados por inteligência artificial, que “separa frequentemente a informação da sua fonte”.
A utilização de fontes anónimas, a protecção da identidade das fontes e o grau de transparência a manter com o público quanto às mesmas são temas de debate constante. Estas questões tornaram-se particularmente complexas na era digital, como se evidenciou no caso de Reality Winner - a jovem analista de inteligência do governo que, em 2017, entregou ao The Intercept um único documento confidencial centrado na influência da Rússia nas eleições presidenciais americanas de 2016. Em troca, foi condenada a 63 meses de prisão, a pena mais longa de sempre por divulgação não autorizada de informação confidencial a um meio de comunicação social.
"Ela foi a primeira denunciante da era Trump e era fácil de perseguir: uma jovem ninguém", disse o jornalista de investigação James Risen, em 2021. O tratamento editorial dado ao documento por parte do The Intercept foi amplamente criticado por não ter salvaguardado a identidade da fonte, o que poderá ter contribuído para o seu desfecho penal.
Reality Winner representa um caso extremo, mas ilustrativo dos riscos que as fontes enfrentam ao partilhar informações com a imprensa. Contudo, os métodos mudaram substancialmente. A divulgação dos Documentos do Pentágono nos anos 70 exigiu copiar manualmente centenas de páginas com recurso a uma máquina de Xerox. Hoje, a transmissão digital de grandes volumes de dados sensíveis é rápida, mas as pegadas digitais são difíceis de apagar.
Na maioria dos casos, são as fontes que enfrentam os maiores riscos. As revelações de Edward Snowden valeram ao Washington Post e ao The Guardian um Prémio Pulitzer, por revelarem como o governo dos EUA estava a espiar os seus próprios cidadãos. Contudo, forçaram-no a exilar-se para evitar uma pena de prisão. “As organizações noticiosas geralmente não consideram que seja um problema delas”, lê-se no artigo.
Ainda que nem todas as relações entre fontes e jornalistas sejam tão dramáticas, continuam a ser tensas, sobretudo em matéria de segurança nacional. Nestas áreas, a utilização de fontes anónimas pode ser justificada, mas o seu uso sistemático enfraquece a confiança do público.
O artigo dá o seguinte exemplo: “Quando as organizações noticiosas, incluindo o New York Times, confiaram demasiado em fontes anónimas durante a preparação para a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, os artigos resultantes enganaram o público sobre a posse de armas de destruição maciça pelo Iraque e ajudaram a preparar o caminho para a guerra. Posteriormente, o Times reforçou as suas práticas relativamente à utilização destas fontes”.
Para John Daniszewski, editor de normas da Associated Press, "um antídoto possível é que os jornalistas expliquem, no seu trabalho, como chegaram à informação". E acrescenta: "A transparência, penso eu, aumenta a confiança. Mesmo quando usamos fontes anónimas, devemos ser o mais específicos possível sobre quem são, sem expor a sua identidade, para manter a confiança do público".
Por vezes, os jornalistas disfarçam-se para obter informação essencial. A repórter Nellie Bly tornou-se célebre no século XIX ao internar-se num hospital psiquiátrico sob falsa identidade, revelando maus-tratos e negligência. Na década de 1970, repórteres do Chicago Sun-Times abriram uma taberna para expor a forma como os inspectores do governo aceitavam subornos de pequenos empresários. Apesar do impacto da reportagem, o conselho do Prémio Pulitzer recusou-se a premiá-la por envolver “mentiras generalizadas”.
“Nem toda a deturpação chega a este nível”. Em 2013, Eric Lipton, do New York Times, investigava antigos assessores de um senador que se tornaram lobistas. Compareceu a um evento privado onde estes estariam presentes, sem se identificar como jornalista. “Foi aí que surgiu o dilema ético: a reunião não era aberta à imprensa nem ao público, o que Lipton sabia. Mas acreditava ter um motivo para comparecer. ‘Os políticos e os lobistas falam de forma muito diferente em ambientes privados do que quando estão com os repórteres. É impossível ouvi-los a falar sem rodeios sem ir a estes eventos’, disse numa coluna do Times”.
Quando questionado, revelou o nome completo e filiação e foi convidado a sair. Mais tarde, um porta-voz do senador queixou-se ao Times. Enquanto editora do Times na altura, Margaret avaliou o caso como um deslize menor, observando que “não deve tornar-se uma prática comum, mas reflecte uma iniciativa jornalística que serve bem os leitores”.
Segundo Brooke Kroeger, professora de jornalismo na Universidade de Nova Iorque, a “reportagem secreta” já deu origem a trabalhos de enorme impacto, como a investigação do Washington Post de 2007 sobre o centro médico militar Walter Reed, que levou à reforma dos cuidados prestados aos veteranos de guerra. Como sublinha: “Um dos princípios orientadores do jornalismo é não causar danos não intencionais a quem não está em condições de se defender”.
O artigo menciona que “em tempos mais recentes, os avanços tecnológicos tornaram mais fácil para os jornalistas tradicionais e jornalistas de advocacia confundir ou ultrapassar a linha entre o comportamento ético e o não ético”. Robert Winnett, editor britânico que deveria assumir a direcção do Washington Post em 2024, acabou por recusar o cargo após alegações de envolvimento em práticas jornalísticas duvidosas, incluindo a utilização de material obtido ilegalmente.
"A verdade é o leme que orienta as decisões éticas no jornalismo", escreveu a escritora Kelly McBride em 2014. "Será que esta informação é verdadeira? Essa é a primeira pergunta, mas não a única que os jornalistas fazem. Será que melhora a compreensão de uma situação? A obrigação de procurar a verdade supera, mas não desculpa, outras transgressões éticas."
O artigo termina com a ideia de que, quando a informação provém de fontes duvidosas, a exigência de noticiabilidade aumenta — e a responsabilidade editorial torna-se ainda mais crítica e necessária.
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