A colunista do Washington Post, Rana Ayyub, conhecida pelas suas investigações sobre direitos humanos e extremismo político, enfrenta desde o início de Novembro uma nova vaga de ameaças de morte. Dez organizações não-governamentais — entre as quais os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) — uniram-se numa carta aberta enviada a 19 de Novembro de 2025 ao comissário da polícia de Navi Mumbai, exigindo uma resposta urgente. 

Ayyub tem recebido “uma série de mensagens de texto, áudios e videochamadas ameaçadoras” desde 2 de Novembro. Um homem não identificado, que afirmou residir no Canadá, ameaçou matar a jornalista e o seu pai caso ela não escrevesse um artigo sobre os tumultos anti-sikh de 1984 e o assassinato de Indira Gandhi. O agressor revelou conhecer a morada de Ayyub em Navi Mumbai e a localização do seu pai, dados que “não eram do domínio público”, como consta da queixa registada na esquadra de Koparkhairane. 

Rana Ayyub tem sido repetidamente alvo de campanhas de assédio online, difamação e processos judiciais abusivos. Em Novembro de 2024, tornou-se vítima de doxxing, com a divulgação do seu número de telefone pessoal nas redes sociais, o que desencadeou centenas de ameaças e chamadas anónimas. Apesar das queixas apresentadas, a jornalista afirma não ter sido informada sobre qualquer progresso nas investigações. 

Para as ONG, o novo episódio representa um ponto de viragem. “As recentes ameaças de morte contra Rana Ayyub e o seu pai representam uma escalada significativa numa longa campanha de assédio contra esta jornalista experiente”, alertou Célia Mercier, Chefe do Departamento da RSF para o Sul da Ásia. A responsável sublinha que a omissão das autoridades “enviaria um sinal perigoso àqueles que procuram intimidar a imprensa, e as mulheres jornalistas em particular”. 

Na carta aberta, as dez ONG expressam “profunda preocupação com o aumento das ameaças enfrentadas” pela jornalista e pelo seu pai. O apelo às autoridades indianas é directo: converter a denúncia actual em processo criminal, abrir uma investigação formal e assegurar protecção imediata. 

Os grupos solicitam que a polícia adopte os seguintes procedimentos: converta a denúncia actual num crime e abra uma investigação ao abrigo da Lei Bharatiya Nyaya e da legislação de tecnologia da informação; forneça protecção física e digital imediata a Ayyub e à família; coordene com autoridades de cibercrime e telecomunicações para identificar os autores das ameaças; reafirme publicamente o compromisso com a segurança dos jornalistas e com a liberdade de imprensa prevista na Constituição indiana. 

A situação de Rana Ayyub reflecte, segundo as ONG, um clima crescente de hostilidade para com jornalistas críticos na Índia. A repetição de ameaças, agora estendidas ao seu pai, evidencia “um padrão de intimidação que põe em risco tanto a sua segurança como o ambiente geral para o jornalismo independente no país”. 

A coligação lembra que Ayyub tem sido alvo de campanhas digitais coordenadas, frequentemente alimentadas por redes extremistas que visam desacreditar mulheres jornalistas, especialmente as que investigam abusos de poder. Nos últimos anos, a Índia tem sido reiteradamente criticada por quedas sucessivas nos índices internacionais de liberdade de imprensa. 

A resposta das autoridades indianas será, afirmam as organizações, um teste à capacidade do país para garantir protecção efectiva aos profissionais dos media e para demonstrar que ameaças de morte contra jornalistas não serão toleradas.  

Entre os signatários encontram-se organizações internacionais de referência, como o CPJ, a PEN Internacional, o IPI, a FPU, a IWMF e a Coligação para as Mulheres no Jornalismo.

(Créditos da imagem: imagem retirada do site dos RSF)