Jornalismo na Sérvia confronta-se com “guerra aberta” aos “media”
O Comité para Protecção de Jornalistas alerta para o agravamento da atmosfera de “caça às bruxas” contra críticos do governo na Sérvia, denunciada por jornalistas há cerca de um ano, depois de o desabamento da cobertura de uma estação ferroviária em Novembro de 2024 ter vitimado mais de uma dezena de pessoas. O acidente acabou por desencadear um movimento anti-corrupção.
Inicialmente centrados na exigência de responsabilização pelo desastre, os protestos evoluíram para uma contestação generalizada à corrupção e ao autoritarismo do presidente Aleksandar Vučić. Como resultado, jornalistas sérvios têm sido alvo de agressões físicas, ameaças, assédio online, campanhas de difamação e espionagem digital, frequentemente promovidos por apoiantes do governo, funcionários públicos e meios de comunicação alinhados com o poder.
Segundo a Associação de Jornalistas Independentes da Sérvia (IJAS), só desde o início de 2025 foram registadas 18 agressões físicas, superando as 17 registadas durante todo o ano de 2024. No total, foram contabilizados 128 ataques e ameaças a jornalistas este ano, aproximando-se dos 166 incidentes registados no ano passado.
“Na crise política pela qual a Sérvia está a passar desde Novembro, estamos a testemunhar uma espécie de guerra aberta contra os media independentes”, declarou Jelena L. Petković, jornalista freelancer especializada na segurança dos media nos Balcãs Ocidentais, em entrevista ao Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ).
“2025 pode vir a ser o pior ano de que há registo para a segurança dos jornalistas no país”.
Petković aponta a reeleição de Donald Trump, o fortalecimento de líderes populistas vizinhos, como Viktor Orbán, e os efeitos do congelamento do financiamento da USAID nos media independentes sérvios como factores externos que incentivaram Vučić a intensificar a repressão sobre a imprensa. Sublinha também que "nenhum dos ataques a jornalistas desde Novembro levou a qualquer processo judicial.”
Attila Mong, representante do CPJ na Europa, afirmou que “esta vaga de ataques a jornalistas independentes que responsabilizam o poder na Sérvia reflecte uma tentativa mais ampla de silenciar a informação crítica no meio de uma crise política cada vez mais profunda”. Neste sentido, considera que “as autoridades sérvias têm de acabar com a impunidade destes ataques, tomar medidas urgentes para proteger os jornalistas e pôr fim ao clima hostil que encoraja aqueles que procuram intimidar os jornalistas”.
O CPJ enviou perguntas para o gabinete de imprensa da presidência e ao Ministério do Interior da Sérvia, mas não recebeu qualquer resposta.
Violência e inação
A análise do CPJ documenta 15 ataques físicos a pelo menos 23 jornalistas, na sua maioria ocorridos durante manifestações. Os casos variam entre tentativas de roubo de equipamento, agressões com ferimentos e obstruções ao exercício da profissão.
A 17 de Maio deste ano, a jornalista Tamara Radovanović, da Južne Vesti, foi atacada por um indivíduo não identificado enquanto cobria um comício do Partido Progressista Sérvio. Apesar da tentativa de roubo do seu telemóvel, a polícia optou por retirá-la do local para “reduzir a tensão”, sem tomar medidas contra o agressor.
Um dia antes, Marjan Vučetić, operador de câmara da N1 TV, foi atacado pelas costas por desconhecidos durante a cobertura de um evento do partido no poder, em Makovište. Chamaram-lhe “traidor” e “mercenário estrangeiro”.
No dia 12 de Abril, uma equipa de cinco jornalistas da KTV foi atacada numa manifestação pró-governo em Belgrado. Um técnico ficou com três dentes partidos e outros membros sofreram ferimentos ligeiros. O Comité para Protecção dos Jornalistas explica que “a polícia só interveio depois de o operador de câmara ter sido agredido, altura em que cercaram os jornalistas e lhes disseram para pararem de reportar, afirmando que não podiam garantir a sua segurança”.
Outros casos incluem agressões a equipas da N1 TV, Nova TV, Euronews, Kovinske Info e a jornalistas freelancers. Vários episódios relatam a presença inactiva da polícia ou acções que dificultaram a cobertura jornalística.
Para além da violência física, os jornalistas têm sido alvo de detenções arbitrárias e vigilância:
A 17 de Maio, Nikola Doderović, correspondente da rádio australiana SBS, e um estudante de jornalismo foram detidos por mais de uma hora pela polícia de Niš durante uma manifestação pró-governo. Em Abril, o jornalista Žarko Bogosavljević, do Razglas News, foi atacado com spray pimenta e espancado durante um protesto, apesar de envergar colete com identificação de imprensa.
O colunista Dejan Ilić, do Peščanik, foi detido por um dia, acusado de “causar pânico e desordem” por comentários feitos num programa de televisão, onde discutiu alternativas políticas para a Sérvia, incluindo um governo de transição.
A campanha contra a imprensa independente inclui ainda outras ameaças e difamações: um vídeo pró-governamental de 60 minutos, transmitido em seis canais nacionais, acusou jornalistas da N1 TV, Nova TV e outros órgãos ligados à United Group de serem “agentes estrangeiros, extremistas e inimigos do Estado, alegadamente a operar ilegalmente na Sérvia”.
A presidente da Assembleia Nacional, Ana Brnabić, e o próprio Presidente Vučić acusaram os meios independentes de espalhar mentiras e agirem como “agentes estrangeiros”. Vučić chegou a questionar publicamente o financiamento internacional de jornalistas, acusando-os de fomentar uma “revolução colorida”, uma referência aos movimentos pró-democracia que surgiram em vários países da Europa de Leste, que Vučić retratou como uma tentativa ocidental de minar a soberania da Sérvia.
Desde Novembro de 2024, profissionais da N1 TV, Nova TV, Magločistač e defensores da liberdade de imprensa têm recebido ameaças de agressão física e de morte.
(Créditos da imagem: Imagem retirada do site do CPJ)