Imprensa húngara continua sob pressão pró-governamental
A recente aquisição do tabloide Blikk pelo grupo pró-governamental Indamedia levou à saída imediata do seu editor-chefe, num episódio que ilustra, segundo analistas e profissionais do sector, o ambiente de crescente pressão sobre o jornalismo independente sob o governo de Viktor Orbán.
Num artigo para o Columbia Journalism Review, o próprio editor-chefe, Iván Zsolt Nagy, conta, na primeira pessoa, como decorreu todo este processo. A operação foi concluída no final de Outubro, enquanto a administração editorial participava numa cimeira da Ringier, conglomerado suíço proprietário do Blikk até então. Fontes internas relataram que a empresa recebeu uma oferta considerada “irrecusável” por parte da Indamedia, grupo alinhado com o executivo húngaro e já proprietário de alguns dos mais influentes veículos de comunicação pró-governamentais.
Ao regressar a Budapeste, o editor-chefe foi informado de que os novos donos não pretendiam manter a sua colaboração. A saída foi confirmada logo após o anúncio oficial da mudança de proprietários à redacção. A direcção suíça da Ringier deslocou-se mesmo à Hungria para comunicar pessoalmente a venda aos funcionários.
Profissionais do sector afirmam que a compra do Blikk ocorre num momento politicamente sensível. Pela primeira vez em dezasseis anos, Orbán enfrenta um adversário considerado credível: Péter Magyar, ex-alto responsável de empresas estatais e fundador do novo partido Tisza, que tem liderado as sondagens a poucos meses das eleições gerais. A aquisição de um dos jornais mais lidos do país — com mais de meio milhão de leitores diários na edição digital e forte penetração nas zonas rurais — poderá representar uma tentativa de reforçar o controlo sobre um público crucial para o Fidesz.
A Indamedia, que já controla o principal portal de notícias Index e o canal de televisão comercial TV2, descreve a operação como uma decisão económica. Contudo, críticos acreditam que se trata de uma manobra com objectivos eleitorais claros, capaz de influenciar leitores mais velhos e populações fora dos grandes centros urbanos, tradicionalmente decisivas nas vitórias do Fidesz.
Nos bastidores, a Ringier havia delineado para o Blikk uma estratégia de reposicionamento editorial, com o objectivo de transformar o tabloide num jornal mais sofisticado, apostado na actualidade política, económica e cultural, e em práticas inovadoras como o recurso responsável a ferramentas de IA. A mudança, que começava a ser notada pelo público, deverá agora ser revertida pelos novos proprietários.
A aquisição do Blikk representa, segundo observadores, mais uma peça numa engrenagem mediática que permanece determinante para a estratégia de longa duração do executivo. Quer Orbán vença ou perca as próximas eleições, os grandes veículos agora sob controlo de aliados continuarão, afirmam analistas, a oferecer ao Fidesz plataformas de comunicação poderosas e rentáveis.
"Mais uma vez, os jornalistas estão a perder nesta história. À medida que o sector continua a encolher, tenho visto muitos colegas talentosos abandonarem a área, ou pior, o país, porque já não aguentavam mais a pressão ou não conseguiam ganhar o suficiente para terem uma vida digna. Gostaria de continuar a fazer o meu trabalho de forma independente e imparcial, como sempre fiz. Mas as probabilidades não estão a meu favor”, concluiu o agora ex-editor-chefe, Iván Zsolt Nagy.
(Créditos da imagem: imagem retirada do site do Columbia Journalism Review)