Diário sueco cria “chatbot” para os seus leitores
O Aftonbladet, maior jornal diário da Suécia e com mais de 3,5 milhões de utilizadores diários, lançou este ano o seu próprio chatbot baseado em inteligência artificial, disponível em 50 idiomas para permitir que os seus utilizadores obtenham notícias de uma forma diferente. A ferramenta, chamada Hej Aftonbladet, resulta de um trabalho conjunto entre as equipas editorial e técnica e já responde a cerca de 50 mil perguntas por dia.
Em entrevista ao The Fix, Martin Schori, director editorial de IA e Inovação do Aftonbladet, explicou as origens, o funcionamento e as ambições do projecto.
A iniciativa nasceu da necessidade de alcançar públicos cujo consumo de notícias se encontra em mudança acelerada. “Queríamos experimentar um chatbot para ver se havia procura por essa forma de consumir o nosso jornalismo”, afirma Martin Schori. O primeiro teste surgiu em 2024, durante as eleições europeias, com um chatbot dedicado exclusivamente ao tema. Com esta experiência, descobriram “um envolvimento surpreendentemente grande, com cerca de 160 mil perguntas respondidas.”
O êxito levou a redacção a aplicar o modelo durante as eleições norte-americanas, tendo o chatbot respondido a cerca de 600 mil perguntas. Com base nesses resultados, o jornal decidiu lançar o chatbot de forma permanente.
O funcionamento e os primeiros resultados do Hej Aftonbladet
A base de dados do chatbot inclui conteúdos de notícias, desporto, entretenimento e meteorologia publicados nos últimos três anos. A ferramenta está integrada na página inicial e em todos os artigos, permitindo aos utilizadores colocar perguntas livres ou optar por questões pré-definidas, seleccionadas pela redacção com base em tendências de pesquisa e acontecimentos relevantes.
“Procuramos focar na clareza, relevância e tom”, explica Schori. O Hej Aftonbladet funciona como “uma nova ferramenta de mediação de informações, capaz de extrair, contextualizar e reformular dados de conteúdos existentes”, reforçando a relação entre jornal e público.
Ao fim de seis meses, o volume de utilização estabilizou em cerca de 50 mil perguntas por dia, com quase um quarto dos utilizadores abaixo dos 36 anos. As perguntas pré-definidas são, de longe, as favoritas, sobretudo quando há uma grande notícia na capa: “As pessoas podem obter respostas rápidas em vez de ler artigos, percorrer a página e procurar informações.”
Contudo, em temas especializados — como as eleições dos EUA — o padrão muda. “As pessoas já estão interessadas no assunto. Elas estão envolvidas e querem saber mais. Aqui elas estão a conversar muito”, refere.
Ferramenta em meia centena de idiomas
A opção de disponibilizar o chatbot em 50 idiomas tem também um objectivo de inclusão. “Na Suécia, temos várias centenas de milhares de pessoas que têm o árabe como primeira língua”, lembra Schori. Para parte desse público, o Hej Aftonbladet pode ser “a primeira vez em que se sentem incluídos nas notícias suecas”.
Para Martin Schori, a utilização de chatbots corresponde a uma mudança profunda nos hábitos de procura de informação: “As pessoas querem respostas rápidas e personalizadas, em vez de rolar a página e procurar.” Para o responsável, esta abordagem contrasta com o modelo tradicional: “Escrevemos artigos, enviamos para todo o mundo e esperamos que as pessoas gostem. Agora é diferente, e acho que é algo que temos de abordar.”
Schori sublinha ainda um ponto essencial: a confiança. “Muitos desses chatbots têm um nível de confiança muito baixo, como o ChatGPT, em comparação com o Hej, que baseia as suas respostas apenas no nosso jornalismo verificado.”
Os desafios deste processo
Construir o chatbot foi mais complexo do que previsto. “Foi muito difícil fazer com que ele não tivesse alucinações”, admite o director editorial. Apesar de o sistema ser baseado no trabalho jornalístico do próprio Aftonbladet, a supervisão humana continua indispensável: “Temos de ter um editor que trabalhe com as perguntas das pessoas. Precisamos de desenvolver e corrigir coisas constantemente.”
Quanto ao futuro, Schori acredita que o potencial do chatbot está longe de estar esgotado: “Acho que tem muito potencial, e vamos continuar a desenvolvê-lo e a trabalhar com ele.” Uma das próximas etapas poderá ser a introdução da interacção por voz: “Acho que falar também é super interessante de desenvolver, para que as pessoas possam interagir com ele e com a voz.”
(Créditos da imagem: imagem retirada do site The Fix)