A profissão de jornalista em Portugal enfrenta um dos momentos mais críticos das últimas décadas. A crise financeira dos media, a precariedade laboral e uma crescente perda de identidade e credibilidade surgem como os principais desafios apontados por profissionais do sector, segundo um inquérito recente conduzido pela professora catedrática Felisbela Lopes, da Universidade do Minho. 

O estudo, realizado entre Dezembro de 2025 e Março de 2026 junto de uma centena de jornalistas de diferentes órgãos de comunicação social, revela um agravamento significativo das preocupações face ao cenário identificado há dez anos. Se, na altura, a profissão era considerada “ameaçada”, hoje é descrita como estando “no limiar do precipício”. 

Entre os principais constrangimentos à liberdade de imprensa, a crise financeira dos grupos de media surge destacada, reunindo o maior número de referências. A fragilidade económica das empresas jornalísticas dificulta a sustentabilidade dos projectos editoriais e compromete a independência das redacções. A escassez de recursos traduz-se, frequentemente, numa redução da capacidade de investigação e fiscalização do poder, com implicações directas na qualidade da democracia. 

Logo a seguir, a precariedade laboral aparece como uma das maiores preocupações. Salários baixos, vínculos instáveis e o recurso generalizado a recibos verdes caracterizam o panorama actual, tornando a profissão menos atractiva e levando ao afastamento de jornalistas experientes. Esta instabilidade contribui também para a diminuição do número de profissionais nas redacções, aumentando a pressão sobre os que permanecem. 

A terceira grande preocupação identificada é a crise de identidade do jornalismo. A perda de credibilidade, o enfraquecimento dos valores profissionais e a diminuição do reconhecimento social estão a transformar profundamente a percepção da profissão. A proliferação de conteúdos nas redes sociais e a crescente confusão entre jornalistas, comentadores e influenciadores contribuem para diluir o papel do jornalismo enquanto mediador rigoroso entre os factos e os cidadãos. 

Além destes factores, os jornalistas apontam ainda riscos associados à inteligência artificial, à desinformação e às dinâmicas das redes sociais, bem como pressões externas (desde fontes e audiências até influências políticas) que condicionam o exercício da profissão. 

Perante este cenário, Felisbela Lopes sublinha a necessidade urgente de implementar medidas concretas previstas no Plano de Acção para a Comunicação Social, lançado em 2024. Em particular, destaca a importância de avançar com iniciativas que reforcem a sustentabilidade económica dos media, melhorem as condições laborais e apoiem a adaptação tecnológica do sector. 

A académica defende também a criação de uma entidade com poderes legais para regular a profissão, garantindo o cumprimento de normas éticas e definindo claramente quem está habilitado a exercer jornalismo. Mais do que discutir a criação de uma ordem profissional, considera essencial reforçar a identidade e credibilidade da actividade. 

(Créditos da imagem: Unsplash)