Filantropia como alternativa no mundo mediático para redacções sem fins lucrativos
As redacções sem fins lucrativos, sobretudo aquelas com enfoque digital, têm vindo a ganhar relevância no mundo mediático, mas permanecem ainda muito aquém da capacidade financeira que caracterizava a indústria jornalística há duas décadas. A conclusão é de um novo relatório da Fundação Wyncote, que traça um retrato detalhado dos desafios estruturais enfrentados por este modelo emergente.
Segundo o estudo, a maioria destas organizações depende fortemente da filantropia para assegurar a sua sobrevivência, sendo ainda limitadas as receitas provenientes de assinaturas, publicidade ou quotas de sócios. Estas chamadas “receitas próprias” representam apenas entre um quarto e um terço do financiamento total necessário para manter as operações.
Em 2024, cerca de 400 redacções digitais sem fins lucrativos geraram entre 650 e 700 milhões de dólares. Apesar de significativo, este valor corresponde a apenas 1% das receitas combinadas de publicidade e circulação registadas pela indústria jornalística há 20 anos. Em 2004, existiam aproximadamente 9000 jornais, um número muito superior ao actual universo destas redacções.
O declínio do jornalismo local tem sido acentuado. Desde 2005, desapareceram quase 40% dos jornais e cerca de 75% dos postos de trabalho no sector, de acordo com dados recentes sobre o estado das notícias locais. Neste contexto, as redacções sem fins lucrativos têm vindo a assumir um papel cada vez mais relevante, preenchendo lacunas deixadas pelo encerramento ou redução de meios tradicionais.
Ainda assim, o relatório sublinha que o caminho para a sustentabilidade é longo. Mark Fuerst, coautor do estudo, defende que será necessário um investimento contínuo para garantir salários dignos e condições de trabalho adequadas. “Se queremos ter um sector saudável, será preciso muito mais financiamento para assegurar estabilidade às equipas”, afirmou.
Uma das principais dificuldades identificadas prende-se com a falta de investimento em áreas não editoriais, nomeadamente no desenvolvimento de negócios. Muitos jornalistas-fundadores demoraram a encarar as suas redacções como empresas, o que atrasou a adopção de estratégias de crescimento sustentado. A ausência de equipas dedicadas à captação de receitas limita a expansão destas organizações, criando um ciclo difícil de quebrar: sem investimento não há crescimento, e sem crescimento não há capacidade para atrair investimento.
A filantropia surge, assim, como elemento central neste modelo. Ao contrário do que sucedia nos meios tradicionais, onde tinha um papel marginal, tornou-se uma fonte dominante de financiamento nas últimas décadas. Em muitos casos, representa cerca de metade das receitas totais.
Contudo, o relatório alerta para a necessidade de diversificação. A dependência excessiva de apoios filantrópicos levanta questões sobre a viabilidade a longo prazo. Ainda que se anteveja uma transição gradual de financiadores nacionais para apoios de âmbito local, as redacções continuam longe de conseguir operar sem este suporte.
“Os financiadores não poderão simplesmente considerar a sua missão cumprida e retirar-se", sublinhou Fuerst. “As receitas provenientes de assinaturas e publicidade continuam insuficientes”.
O estudo conclui que o futuro do jornalismo local dependerá de um equilíbrio delicado entre financiamento filantrópico e desenvolvimento de fontes de receita próprias. Para já, a realidade mostra que, apesar do crescimento e da importância crescente destas redacções, a reconstrução do tecido jornalístico perdido nas últimas décadas ainda está longe de ser alcançada.
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