O “grande negócio” das sondagens eleitorais que contaminam a política no Brasil
Uma das tarefas mais complicadas de um editor é publicar os resultados de sondagens de intenção de voto nas vésperas de uma eleição. Quem o afirma é Carlos Castilho, num artigo de opinião no Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), em que analisa a pressão que a multiplicação de pesquisas coloca sobre o jornalismo. Defende que o problema é que o profissional "dificilmente tem acesso à 'cozinha' das pesquisas e vai divulgar dados impossíveis de serem verificados".
Essas estatísticas e gráficos, lembra o autor, "influenciarão as escolhas de eleitores confiantes na capacidade do jornalismo de publicar apenas o que é real e verdadeiro".
O "atropelo" de sondagens
Castilho descreve um ambiente em que sites noticiosos, blogues jornalísticos e influenciadores "se atropelam para divulgar pesquisas pré-eleitorais", com um duplo objectivo: ganhar da concorrência e tentar influenciar o público, "vacinando-o" contra outras interpretações dos mesmos dados. Hoje, existe "em média, uma pesquisa de intenções de voto a cada dois dias, com resultados e metodologias diferentes".
A estas somam-se casos como o do site Brasil do Trecho, que publicou uma pesquisa com resultados "flagrantemente tendenciosos e enganadores", segundo uma verificação em vídeo do checamos.com.br, da agência France Presse. O resultado, avisa o jornalista, é "uma cacofonia de percentuais, tendências e métricas misteriosas que mais confundem do que esclarecem", em que as pesquisas se tornam "cada vez mais instrumentos de indução de voto do que de esclarecimento do eleitor".
Neste contexto, Castilho considera que a contratação de Felipe Nunes, fundador e director da Quaest Pesquisa e Consultoria, pela TV Globo como comentador num programa de notícias "pode gerar dúvidas entre os eleitores sobre os vínculos entre negócios e jornalismo na cobertura de eleições".
O autor sublinha que estas pesquisas envolvem processos muito complexos: selecção de amostras, escolha entre consulta presencial ou virtual, formulação das perguntas, dia e hora das entrevistas, software de processamento, consolidação de resultados, gráficos e formatos de divulgação. "Cada uma destas etapas envolve escolhas técnicas que condicionarão os resultados finais", escreve. Os jornalistas, porém, recebem apenas "um índice de confiabilidade fixado pelos responsáveis pela pesquisa", o número de entrevistados e a data da consulta.
Nos últimos 20 anos, segundo Castilho, quintuplicou o número de empresas que realizam pesquisas de opinião eleitoral. O site Pindograma, referência no acompanhamento dos institutos, investiga cerca de 180 organizações para elaborar um ranking com pouco mais de 100 empresas. O ranking mais recente, publicado em 2024 com dados de 2022, atribuiu o nível A a nove empresas, entre as quais Atlas Intel, Futura, IPEL (antigo IBOPE) e Mapa, sendo a Ágora considerada a melhor de todas. Nomes conhecidos como Datafolha, Quaest, Paraná Pesquisas, Vox Populi e PoderData ficaram na categoria B.
Sem tempo para verificar todas as etapas, os profissionais, autónomos ou em redacções, "são obrigados a confiar no que recebem". Castilho cita uma investigação divulgada no início do mês em Inglaterra, que mostrou como é fácil induzir jornalistas em erro pela manipulação de uma das fases de uma sondagem. O partido Reform UK terá usado uma organização ambiental para encomendar à empresa JL Partners três pesquisas com amostras e perguntas destinadas a gerar uma imagem positiva do partido de extrema-direita. O objectivo foi alcançado e a situação "só veio casualmente a público porque um repórter investigava doações ao Reforma".
A mistura de negócios e política
Para o autor, a multiplicação dos institutos é "causa e consequência do acirramento das disputas pelo poder", da sofisticação tecnológica no uso dos meios digitais e do recurso à corrupção como método político, num contexto eleitoral "cada vez menos uma festa democrática e mais uma batalha ideológica que assume ares de tudo ou nada".
Fazer pesquisas é, aliás, "um grande negócio", como garante o colunista do The Guardian Jonathan Liew, citado por Castilho. Um executivo ouvido pelo Politico resumiu a lógica financeira: "Um empresário só investe em pesquisas quando sabe que terá alguma vantagem com a divulgação dos resultados". A ideia foi corroborada por George Gallup, fundador do instituto com o seu nome: "Se funciona com a pasta de dentes, por que não com a política?"
Castilho conclui que esta interacção entre interesses políticos e empresariais é "um complicador adicional para o discernimento jornalístico na hora de decidir o que é do interesse do eleitor e o que serve a quem aspira ao poder, seja ele político, financeiro ou ambos".
(Créditos da imagem: Pexels)