A maioria das redacções locais nos Estados Unidos necessita de mais dinheiro, de preferência sem condições. Foi essa a aposta da Press Forward, organização sem fins lucrativos que procura mobilizar a filantropia em favor do jornalismo local. Em 2024, anunciou que financiaria pelo menos 100 pequenas redacções, com orçamentos anuais abaixo de um milhão de dólares, com verbas de livre utilização. 

Candidataram-se quase mil e, no final, foram distribuídos 20 milhões de dólares por 205 órgãos de comunicação social. A maioria recebeu 100 000 dólares, repartidos por dois anos. Oito beneficiários, como o The Real WV, receberam apenas duas parcelas de 25 000 dólares. 

Entre Maio e Outubro, Sophie Culpepper, jornalista do Nieman Lab, falou ou trocou mensagens com mais de 30 beneficiários, de todos os estados, de zonas urbanas, suburbanas e rurais, com e sem fins lucrativos, em papel e online, em várias línguas. 

Para várias redacções, foi a primeira candidatura a uma subvenção. A directora executiva da Press Forward, Dale Anglin, explicou que muitas redacções do país são pequenas e poucas recebem apoio de fundações, e que o concurso foi pensado para mudar isso e para distribuir os fundos de uma forma célere. 

Os beneficiários tiveram de realizar duas auditorias de sustentabilidade da LION, com um ano de intervalo. A Press Forward está a analisar os dados e prevê divulgar as conclusões no próximo mês. 

A liberdade na utilização do dinheiro foi o aspecto mais valorizado. Allison Sayer, editora do Copper River Record, no Alasca, recorda que a organização lhes disse logo no início que, se precisassem do dinheiro para manter as luzes acesas, o fizessem. Gretchen Sporleder Orr, que edita o World Journal, no Sul do Colorado, com o marido, descreveu o apoio como algo que lhes mudou a vida, e admitiu não saber se ainda estariam no mercado sem ele. 

Muitas redacções usaram o dinheiro para estabilizar a operação. A CivicLex, no Kentucky, contratou um editor consultor para manter a cobertura da câmara municipal depois de perder um repórter e comprou novo software. O News Letter Journal, no Wyoming, actualizou computadores e câmaras e aumentou salários, mas teve de usar cerca de metade da segunda parcela para pagar um empréstimo de exploração, depois de 2025 ter sido um ano difícil. A India Currents, na Califórnia, falou de uma “força estabilizadora” perante a queda de donativos e de publicidade institucional. 

O Copper River Record montou infraestrutura para anúncios digitais, lançou um novo site, fez sessões de auscultação com aldeias indígenas, ofereceu assinaturas a gabinetes tribais e avançou com reportagens sobre PFAS (substâncias per e polifluoroalquiladas). O Sandpoint Reader, em Idaho, descreveu a subvenção como a maior injecção financeira em quase 20 anos: pagou parte da factura de impressão, a renda com um ano de antecedência e bónus aos colaboradores, que passaram a deter 100% do jornal. 

Muitos beneficiários usaram a verba para contratar. No Mānoa Mirror, redacção da Universidade do Havai, duas parcelas de 25 000 dólares financiaram um editor-chefe, um coordenador editorial estudantil, três repórteres estudantes e um produtor de redes sociais. O site passou de algumas notícias por mês a publicação diária. 

Noutros casos, o resultado foi pior. O Texas Spur, em Spur (863 habitantes em 2020), contratou quatro jornalistas em início de carreira. Três saíram para outros sectores a meio do segundo ano. No Montana, o Mineral Independent teve dificuldade em substituir dois profissionais que se reformaram, e o editor regional da Hagadone Media Montana, Anton Kaufer, concluiu que a sustentabilidade não depende apenas do financiamento, mas de ter as pessoas certas nos lugares certos. 

A EcoRI, de Rhode Island, tentou transformar num cargo permanente o de director de desenvolvimento. O salário de 65 000 dólares ficou aquém do valor de mercado, que a cofundadora Jo Detz estima em cerca de 90 000. A pessoa contratada, de outro estado e sem experiência em jornalismo, custava mais do que gerava, e o cargo foi eliminado em Dezembro. Detz considera que a função precisaria de dois a três anos para dar resultados. “Sei que parece uma loucura dizer que 100 000 dólares ao longo de dois anos não foram suficientes”, disse. 

Nina Ignaczak, do Planet Detroit, que recebeu em paralelo 500 000 dólares da Fundação MacArthur ao longo de três anos, defende que financiar uma função de receitas durante pelo menos três anos é o que as pequenas redacções precisam para construir sustentabilidade. 

Papel, parcerias e iniciativas cívicas 

Algumas redacções apostaram no impresso. A NotiVisión Georgia, em língua espanhola, destinou parte do dinheiro à impressão e distribuição, por ser onde os anunciantes locais querem estar. O BenitoLink, na Califórnia, iniciou a edição impressa em 2025 para poder candidatar-se ao estatuto de jornal de referência e receber pela publicação de avisos legais. No Minnesota, Reed Anfinson, do Swift County Monitor-News, reformulou o jornal e criou uma campanha que realça o valor do papel. 

Outras alargaram o âmbito. O Copper River Record passou a publicar ilustrações semanais sobre a língua Ahtna, em risco crítico de extinção, com uma turma de jardim de infância. O Planet Detroit desenvolveu a “Civic Action Toolbox”, que associa às reportagens reuniões públicas, contactos de representantes locais e organizações a seguir, e que está em testes beta noutras redacções. 

Acompanhamento e conferências 

Dos 205 beneficiários, 154 participaram no acompanhamento opcional da consultora Blue Engine, iniciado em Janeiro. Vários disseram que teria sido mais útil mais cedo, uma concessão feita para libertar os fundos com rapidez, segundo Anglin. A maioria avaliou-o positivamente. Amy Stansbury, do Austin Common, usou-o para definir que contratações faziam sentido e como orçamentá-las. 

A Press Forward pagou ainda a presença de beneficiários em conferências, como a Lenfest News Philanthropy Summit e a Business of Local. Para Stansbury, foi a descoberta de um “mundo secreto e oculto” de fundações. Mas, à excepção do Mānoa Mirror, que conseguiu 20 000 dólares de uma fundação local, a maioria dos editores não sentiu que a credibilidade da subvenção se traduzisse em novos financiadores. Alguns gostariam de apresentações directas a financiadores e de mais partilha de conhecimento entre beneficiários. 

Persistem críticas e receios 

Contudo, nem todos foram salvos: o Atlanta Civic Circle encerrou este ano. Segundo Anglin, não recebeu a segunda parcela por não ter concluído a primeira auditoria. A directora executiva, Saba Long, escreveu em Junho que o ambiente de financiamento para o jornalismo local sem fins lucrativos é extraordinariamente difícil. 

Desde 2023, a rede da Press Forward, com mais de 130 financiadores, investiu 258 milhões de dólares directamente em redacções. Um beneficiário anónimo descreveu como uma “bofetada” a segunda ronda, em que organizações de apoio, como a LION e a International Women’s Media Foundation, receberam até 1,5 milhões para infraestruturas. Anglin defende que esse investimento cria um efeito multiplicador no sector. 

Segundo outro beneficiário, há “medo de morte” em relação a 2027, porque o dinheiro da Press Forward não regressa e os apoios nacionais de anos anteriores não se vislumbram. Mais de 80% das receitas do Planet Detroit vêm de fundações, e a meta é reduzir essa fatia para 50% até 2028. Para Ignaczak, as subvenções operacionais não são uma muleta, são infraestrutura. O relatório “State of Local News”, da Medill, publicado este mês, descreve um ecossistema em “estado de precariedade”. 

Ainda assim, há casos animadores: Sayer fala de uma “fada madrinha” e acredita que o que aprendeu continuará a render. Olson, do Sandpoint Reader, diz que o jornal está a “sobreviver”, mas que a subvenção devolveu à equipa exausta a oportunidade de voltar a apaixonar-se pelo ofício. E Sporleder Orr resume o estado de espírito: voltaram a pensar que “é isto que vamos fazer até morrermos”.

A iniciativa filantrópica Press Forward trata-se de um projecto que nasceu nos Estados Unidos, em Setembro de 2023, com o objectivo de revitalizar o jornalismo local.

(Créditos da imagem: Unsplash)