Plataformas foram no Brasil a principal “arena política” da campanha
A imprensa e a televisão deixaram de ser os principais influenciadores na definição do voto dos eleitores brasileiros. A ideia é de Carlos Castilho, que, num artigo de opinião para o Observatório da Imprensa do Brasil (parceiro do CPI), sustenta que os meios tradicionais se tornaram “meros fornecedores dos chamados cortes”, os recortes e vídeos curtos distribuídos em massa nas plataformas digitais.
Para Castilho, André Janones e Pablo Marçal foram, respectivamente, os criadores do “Exército de Lula” e da “Tropa do Bolsonaro”, movimentos cujos "arsenais" são formados quase exclusivamente por cortes e shorts.
O autor defende que as plataformas se tornaram a principal "arena política" da campanha. Aí, a busca de aliados assenta na ideia de que as opiniões se formam pelo acumular de percepções, e não pela reflexão alimentada por dados, notícias e informação. As estratégias de comunicação digital tendem, assim, a produzir opiniões de base emocional e sensorial.
A estratégia de Janones para Lula da Silva, segundo Castilho, surpreendeu os bolsonaristas, que eram a força hegemónica na guerra eleitoral nas plataformas, e ajudou a reanimar os lulistas desmotivados após a derrota na primeira volta das eleições. Para o autor, a arena política “transferiu-se definitivamente para as plataformas”, o que exige novos métodos de cobertura jornalística dos processos eleitorais.
A aposta dos debates
Castilho critica a crença, ainda dominante na imprensa escrita e nos departamentos de jornalismo das televisões, de que os debates formam opinião. Para compensar a perda de audiência, as televisões e os jornais continuam a apostar na “luta de boxe”.
A fórmula, defende, não funciona: se o público quer ver confronto, as plataformas oferecem embates muito mais violentos entre militantes do “Exército” e da “Tropa”. Ambos os movimentos aproveitam frases, gestos e atitudes dos protagonistas dos debates para produzir centenas de micro-mensagens.
O dilema jornalístico
No dia seguinte ao debate na TV Bandeirantes, vários comentadores lamentaram na imprensa tradicional a ausência de discussão sobre os programas de governo. Para Castilho, isso mostra que assinaturas respeitáveis “ainda não compreenderam que a realidade mudou”, e que continuará a mudar com o avanço da inteligência artificial.
Como os cortes e shorts se baseiam em percepções influenciadas por emoções, a falta de reflexão e de diálogo entre posições diversas tende a criar e reforçar bolhas político-ideológicas, onde o extremismo prolifera. Nesse contexto, o jornalismo terá de desenvolver políticas editoriais voltadas para a “desactivação do estopim (rastilho, em português de Portugal) extremista”.
O autor pede que se abandone a lógica da “corrida de cavalos”, centrada em quem ganha e quem perde, e que se resista à superficialidade e à simplificação. Estimular a luta de boxe, avisa, é agudizar rivalidades entre bolhas partidárias.
Castilho vê sinais de revisão das estratégias de cobertura eleitoral nos Estados Unidos. Vários candidatos da oposição aos republicanos nas legislativas de Novembro fazem campanhas centradas em questões locais, em parceria com a imprensa e jornalistas independentes também locais. Algumas sondagens já mostraram resultados surpreendentes para um partido que parecia "inconsciente", embora o autor admita ser ainda cedo para concluir que os democratas encontraram a fórmula para neutralizar o efeito das micro-mensagens.
(Créditos da imagem: Magnific)