A campanha eleitoral brasileira "sinalizou uma importante mudança na forma como a sociedade contemporânea terá que lidar com o trinómio política, comunicação e jornalismo", escreve Carlos Castilho num artigo de opinião para o Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém uma parceria. Na sua leitura, é já claro que "a velha separação entre o voto, as plataformas digitais e a notícia está com os seus dias contados", num caminho para uma integração em que cada elemento "condiciona directamente os outros dois". 

Para Castilho, o efeito sobre o jornalismo é directo, porque a actividade lida com notícias, e estas são fundamentais para atrair atenção. Num ecossistema saturado de dados, uma notícia apenas desperta interesse se responder "às necessidades, desejos e inquietações das pessoas e comunidades às quais se destina". 

O texto descreve que, se até agora a notícia era "uma mercadoria que servia para financiar projectos jornalísticos através da publicidade paga", a "avalanche informativa na internet" fez com que perdesse valor de troca e passasse a funcionar "cada vez mais como matéria-prima para as pessoas desenvolverem conhecimentos". Ao jornalismo cabe identificar essas necessidades e apresentá-las "de forma atraente, rápida e facilmente compreensível". 

Para isso, defende o jornalista, é indispensável haver comunicação, isto é, estruturas que permitam a interacção entre pessoas. É o que se espera das redes sociais, mas o autor considera que isso exigirá a regulamentação de plataformas como Facebook, Instagram, WhatsApp, YouTube e TikTok, "já que elas são basicamente um negócio para monetizar a atenção das pessoas". A sua preocupação central, acrescenta, "não é facilitar a integração das pessoas visando a formação de conhecimento e a geração de capital social". 

Castilho aponta uma série de acontecimentos recentes como sinais da mesma tendência: a reviravolta no segundo turno das eleições brasileiras, a derrota de um governo autoritário na Sérvia e os protestos de rua em Paris, Lisboa, Milão, Madrid e Berlim, todos "iniciados e liderados por estudantes". Segundo o texto, trata-se do surgimento de "um actor político sem líderes, sem plataforma, só slogans, e sem filiação partidária". 

A força desse movimento, explica, vem de os estudantes terem usado "redes criadas por eles próprios dentro das plataformas digitais para reunir adeptos e disseminar acções". O modelo funcionou porque respondeu ao desejo dos jovens de expressar o seu "inconformismo com o modelo político vigente na maioria dos países ocidentais". Nos protestos, "política e comunicação funcionaram de forma síncrona o tempo todo", o que classifica como "um recurso inédito". 

No Brasil, Castilho cita o caso do deputado federal André Janones, que criou o movimento virtual "exército de Lula". Sem patrocínio comercial ou partidário e apoiado apenas no medo de um regresso do autoritarismo, mobilizou, segundo o artigo, "10 milhões de pessoas" e ajudou a garantir a reeleição do actual presidente. Esta iniciativa, juntamente com o movimento estudantil sérvio, mostra que mudanças antes vistas como impossíveis "podem mudar um ambiente político de forma irreversível". 

O jornalista afirma que o discurso tradicional da "observação isenta" e do distanciamento está "cada dia mais obsoleto e distante da realidade política das eleições contemporâneas". Como prova, aponta o "desgaste dos debates entre candidatos", onde, para evitar agressões, as emissoras criaram "tantas regras que o debate ficou enfadonho e longe de atender ao objectivo de ajudar o/a eleitor/a a formar uma opinião". 

Para Castilho, o argumento da imparcialidade "perde consistência na era digital porque o mundo já não está dividido apenas em duas posições". Os confrontos políticos são cada vez mais multifacetados, o que torna "virtualmente impossível cobrir toda a diversidade de posições com o grau de isenção apregoado pelos actuais manuais de redacção". 

A justificação tradicional era que, ao assumir um lado, o jornalista desvirtuaria a notícia e induziria o público em erro. Mas, argumenta, a internet oferece "muitas percepções diferentes de uma mesma realidade", não necessariamente "100% errados". Num contexto de apenas dois lados, criava-se a percepção de que um estava certo e o outro errado. Quando há "a possibilidade de várias verdades", há também espaço para vários posicionamentos. 

É neste quadro que o autor menciona o projecto jornalístico do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), que assumiu um lado nas últimas eleições presidenciais. Para o autor, isso "não é sinónimo de desvirtuamento da verdade". O compromisso essencial do jornalismo, conclui Castilho, é "com a veracidade, exactidão, relevância e pertinência das notícias levadas ao público". E sustenta que não se pode falar em distorção da verdade "quando entram em questão várias verdades". 

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