Com espanto, observou-se um invulgar silêncio nos media portugueses, com raras excepções, perante o “scoop” do The Wall Street Journal ao revelar a possível adesão do Canadá à União Europeia, no quadro de uma nova figura de “país associado”.

E só após a confirmação dada pela líder europeia , Ursula von der Leyen no discurso sobre o estado das União, ao convidar o Canadá para se candidatar como “primeiro membro associado da UE” - uma nova figura jurídica que terá de ser criada e amadurecida, além de ratificada pelos estados membros -, é que a maioria dos media portugueses despertou do seu torpor , percebendo que estava em causa uma viragem geopolítica profunda, selada pelo abraço simbólico de Ursula von der Leyen com o primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, presente no hemiciclo de Estrasburgo, convertendo, assim,  o “rumor” do WSJ num dos acontecimentos  mais relevantes da década.

A estranha apatia inicial dos media portugueses e da parafernália de comentadores residentes – com excepção, que se tenha visto ou lido, de Paulo Portas, no seu espaço semanal da TVI – só seria alterada a seguir à confirmação oficial no discurso do Estado da União.

Portanto, ou o WSJ não é suficientemente credível nas redaccões portuguesas -  o que seria absurdo perante o respeitável histórico do jornal -, ou há jornalistas e responsáveis editoriais muito distraídos, focados excessivamente nas tricas partidárias e na agenda interna.

Sucede que este anúncio é o corolário de negociações que decorrem há meses entre delegações especializadas europeias e canadianas, e se chegarem a bom termo  poderão ter criado as bases necessárias para concretizar um passo importante para ambas as partes, fustigadas pelas políticas erráticas de Donald Trump.

Recorde-se que este possível acordo se segue a um outro fundamental do qual também pouco se tem falado – o acordo de Parceria Estratégica entre a União Europeia e o Mercosul -   oficialmente assinado em  janeiro passado, após mais de 25 anos de negociações. Actualmente, o tratado encontra-se numa fase de aplicação provisória da sua componente comercial, enquanto avança o complexo processo de ratificação legislativa. 

Por isso, e  caso seja  instituída essa nova plataforma com o Canadá, como é expectável, a União conseguirá um relevante salto qualitativo, enquanto prosseguem as negociações para o alargamento da União a países como Montenegro, Albânia e Moldávia, entre os mais avançados. Ao mesmo tempo, note-se, que o Reino Unido enfrenta um risco sério de desmembramento, com os referendos anunciados pela Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte, consequência óbvia do fiasco do “Brexit”.

Com o memorando histórico assinado pelos líderes das três nações, este mês,  em Cardiff, exigindo em conjunto a Londres o direito à autodeterminação e afirmando que "o tempo de Westminster está a chegar ao fim", o desafio ficou lançado, embora o governo britânico tivesse reagido com firmeza contra a realização de novas consultas populares.

Vive-se uma situação de tensão política a vários níveis, desde a imprevisibilidade americana e do Kremlin, até às ambições económicas, tecnológicas e geopolíticas de Pequim, com uma Europa adormecida no seu bem-estar e o continente africano cronicamente estagnado, embora estuário de muitas ambições.

Os media portugueses precisam de acordar e sacudir a “tabloidização” em que deixaram envolver-se.  De outro modo, o desfecho antevê-se sombrio, apesar dos apoios oficiais anunciados, que nunca são almoços grátis…