Retrato breve da desinformação que se instalou e marcou o Mundial de Futebol da FIFA
Uma análise publicada pelo Nieman Lab, traça um retrato da forma como a desinformação se espalhou durante o mais recente Campeonato do Mundo da FIFA. Uma semana depois do início do torneio, no canal de streaming argentino Luzu TV, a apresentadora Florencia Peña anunciou, em directo, que Jorge Messi, pai de Lionel Messi, tinha morrido. Minutos depois, Peña admitiu que a informação lhe tinha sido transmitida pelos produtores através do auricular, sem confirmação, e que esperava que fosse falsa. E era.
Em poucos minutos, Jorge Messi tornou-se um dos temas mais comentados no X (antigo Twitter), gerando confusão e indignação internacional face à falta de verificação. A família de Messi reagiu com um comunicado em que manifestou "profunda tristeza pela falta de sensibilidade, respeito e escrúpulos" com que o assunto tinha sido tratado, sublinhando que qualquer informação não vinda directamente da família ou dos seus canais oficiais não deveria ser considerada válida. Segundo o jornal espanhol El Mundo, vários anunciantes chegaram a rescindir contratos com a Luzu TV, que acabou por despedir Peña e os produtores envolvidos.
Uma selecção que "não confiava na comida americana"
O episódio da Luzu TV foi apenas um entre vários. Quando a selecção norueguesa começou a treinar na Carolina do Norte, espalhou-se online uma narrativa falsa segundo a qual a equipa estaria a importar comida da Noruega por desconfiar da comida norte-americana. A Associated Press e outros órgãos de comunicação desmentiram a alegação, mas isso não travou a sua disseminação. Segundo a plataforma de monitorização Cyabra, 27% dos perfis do Twitter que contribuíram para espalhar esta narrativa eram contas falsas ou bots.
Também circularam amplamente citações falsas atribuídas ao treinador José Mourinho, comentando decisões táticas e polémicas de arbitragem do torneio. Por serem publicadas por contas que se apresentam como paródias, e por Mourinho ser conhecido pelo estilo directo e bem-humorado, estas citações pareciam credíveis à primeira vista (e, segundo respostas e interacções observadas nas redes, muitas pessoas acreditaram que eram genuínas).
Um vídeo tirado do contexto, com milhões de visualizações
Outro caso envolveu um vídeo do jogador espanhol Lamine Yamal com o irmão de três anos, Keyne, que se tinha tornado viral durante o Mundial. Um tweet associou o vídeo, que mostrava Keyne com o cabelo pintado de azul-claro, cor da seleção argentina, a uma suposta visita ao barbeiro antes da final do Mundial, com a legenda "Lamine Yamal levou o seu irmãozinho, Keyne, para cortar o cabelo antes da final do Campeonato do Mundo da FIFA". Na realidade, o vídeo era genuíno, mas tinha sido publicado a 16 de Maio, muito antes do torneio. Ainda assim, antes de ser corrigido por uma nota da comunidade, o tweet fora do contexto já tinha sido visto 8,4 milhões de vezes e recebido mais de 46 mil gostos.
Imagens geradas por IA sem qualquer correcção
A inteligência artificial trouxe também os seus próprios problemas. Durante um jogo entre a Alemanha e Curaçau, circulou uma imagem, criada com o ChatGPT, que aparentava ser uma captura de ecrã da transmissão, mostrando uma pessoa vestida de Hitler nas bancadas, entre outros adeptos alemães. Ao contrário do vídeo de Yamal, esta publicação nunca recebeu qualquer nota de correcção da comunidade, apesar de já ter ultrapassado os cinco milhões de visualizações.
Vários destes episódios foram identificados de forma directa por quem acompanhava o torneio nas redes sociais — ver algo suspeito, investigar, confirmar que era falso, e confrontar-se com números de interacção extremamente elevados, mesmo depois da desmentida. Estes casos representam apenas os exemplos identificados por um único utilizador nos seus próprios feeds. Não é possível saber quantas outras informações falsas circularam sem qualquer verificação.
Um problema que atravessa todas as plataformas
A desinformação não se limita a uma única rede social. Uma alegação falsa pode nascer no Twitter, ser capturada em print screen e replicada no Instagram, TikTok, Facebook, Reddit, grupos de WhatsApp ou canais de Slack — plataformas onde ferramentas como as notas da comunidade não chegam a propagar-se. Apesar dos esforços dos jornalistas e das redacções para antecipar, verificar e desmentir informações falsas, e de produzirem jornalismo em formatos mais consumíveis para o público, a desinformação continua a espalhar-se mais depressa do que a verdade.
O fenómeno ganha ainda mais relevância por acontecer à volta de um desporto conhecido pela sua simplicidade. "A não ser que esta mentalidade se consolide contra a desinformação, durante o próximo Mundial, talvez estejamos todos a assistir à mesma partida, mas provavelmente nunca mais assistiremos à mesma realidade", conclui o artigo do Nieman Lab.
(Créditos da imagem: Unsplash)