Um livro recente, resultado de um trabalho académico, coordenado pelo investigador Jaime Lourenço, elegeu os “50 Anos de Jornalismo Parlamentar em Portugal”, como pretexto e pano de fundo para uma reflexão aprofundada sobre uma das modalidades jornalísticas com maior permanência em funções dos profissionais envolvidos nessa cobertura.

Ser jornalista parlamentar constitui, em larga medida, uma especialização, exigindo rigor e isenção, afinal, trave-mestras no exercício de um jornalismo responsável.  

Esse estatuto especial foi realçado, e bem, pelo presidente do Parlamento, José Pedro Aguiar Branco, durante a apresentação do livro que, aliás, prefaciou, e para quem "não há democracia sem jornalismo livre e não há parlamentarismo sem jornalismo parlamentar".

É importante sublinhá-lo numa altura em que surgem tantos atropelos à liberdade de Imprensa, mesmo na Europa e em democracias adultas, já que o jornalismo parlamentar em Portugal é visto como o "pulmão da democracia" e um pilar indispensável para o regular funcionamento das instituições políticas.

De facto, a cobertura jornalística parlamentar não só se reconhece num escrutínio fundamental sobre a actuação dos deputados, como poderá combater a desinformação e o populismo tão na moda, além de intensificar o pluralismo e a polifonia, contribuindo para aproximar eleitos e eleitores.

Assim, os jornalistas actuam como a “ponte” que traduz o complexo trabalho legislativo e as comissões parlamentares para uma linguagem acessível ao público geral.

E essa cobertura, quando desenvolvida sem facciosismos nem preferências políticas pessoais, ajuda a mitigar o declínio de confiança nas instituições políticas e a aproximar as dinâmicas do poder dos cidadãos. 

Por isso, é de louvar que Aguiar Branco, enquanto segunda figura do Estado, tenha enfatizado que "o público português é muito mais exigente do que parece. Continua a preferir jornalistas a influencers, continua a querer profissionais de notícias e não de indignações ou de polémicas. E o desafio da comunicação social, o desafio dos jornalistas, é estar à altura dessa exigência". Sem dúvida.

Foi um discurso realista numa época tão propícia ao “descaminho” do jornalista, atraído, por vezes, pelos holofotes dos palcos mediáticos, onde vicejam os mais alucinados comentadores ao serviço de causas próprias e alheias.

Assinalar meio século de jornalismo parlamentar, com um estudo académico e uma evocação oportuna do percurso feito por muitos profissionais, é uma homenagem que certifica, também, uma responsabilidade que nunca poderá esgotar-se nem ser posta em causa. 

O livro, conforme é explicado pelos autores, “procura lançar um novo e oportuno olhar sobre a história do jornalismo parlamentar no nosso país, articulando a análise do passado com o estudo e a reflexão sobre os desafios presentes e futuros da imprensa”.

E, em boa verdade, não faltam os desafios, seja ao jornalismo parlamentar, seja ao jornalismo mais generalista, frequentemente incompreendido e vilipendiado, quando não se rende aos interesses do dia.