O misto.media, um órgão de comunicação regional criado em Lutsk, na Ucrânia, está a construir um modelo editorial e financeiro assente na independência política, no envolvimento da comunidade e na diversificação de receitas para enfrentar os desafios impostos pela guerra. 

Fundado em 2024, durante a invasão russa da Ucrânia, o misto.media nasceu da vontade de um grupo de jornalistas de criar um meio de comunicação livre de interferências políticas, numa realidade em que muitos órgãos de comunicação regionais dependem do financiamento de empresários com interesses partidários. 

"A nossa primeira missão foi mais interna: criar um veículo de comunicação que proporcionasse um ambiente saudável aos jornalistas, para que pudessem fazer jornalismo a sério, e não disparates, e para que pudessem crescer profissionalmente", afirma Liudmyla Yavorska, directora do misto.media, em entrevista ao The Fix

Para garantir autonomia, a equipa definiu-se como organização não-governamental e estabeleceu parcerias com empresários do sector tecnológico, que asseguram o financiamento inicial e o apoio técnico ao projecto. 

Actualmente, a redacção conta com 18 profissionais, distribuídos por equipas especializadas em informação diária, reportagem de fundo, edição, design, fotografia e multimédia. 

Segundo Yavorska, a organização interna é complementada por um rigoroso processo de revisão editorial. "Todos nós nos esforçamos para que os jornalistas evoluam por conta própria, mas uma revisão adicional nunca é demais", sublinha. 

Jornalismo centrado em soluções 

Ao definir a linha editorial, o misto.media optou por não competir com os projectos de jornalismo de investigação já existentes na região de Volínia. Em vez disso, decidiu apostar em histórias de impacto positivo e iniciativas locais que procuram resolver problemas concretos. 

A escolha resulta também da experiência profissional da directora, que trabalhou durante seis anos como jornalista de investigação. "Sei o quanto este sistema consome os jornalistas e os seus nervos só para levar um caso contra algum funcionário corrupto a tribunal", afirma. 

Em vez de privilegiar exclusivamente denúncias, o órgão de comunicação procura mostrar soluções e exemplos de inovação comunitária, numa tentativa de inspirar os leitores durante um período marcado pela guerra. 

A estratégia estende-se também à presença digital. Em vez de utilizar as redes sociais apenas para encaminhar utilizadores para o site, o misto.media produz conteúdos específicos para plataformas como Instagram, Facebook e TikTok, adaptando a linguagem aos diferentes públicos. 

Comunidade para além do jornalismo 

O envolvimento da população é outro dos pilares do projecto. Para fortalecer a ligação com os leitores, a redacção promove iniciativas presenciais, como um clube de leitura mensal e actividades desportivas em espaços públicos. 

Sobre o projecto "Misto Move", Yavorska explica que a ideia surgiu de uma necessidade sentida pela própria equipa. "Com base num pedido interno, uma vez que nós próprios nos interessávamos por desporto, pensámos: toda a gente vai ao ginásio, paga, mas na verdade existem muitas formas e lugares na cidade onde se pode treinar livremente, de graça, mas as pessoas nem sempre sabem disso", refere. 

O clube de leitura reúne regularmente dezenas de participantes, enquanto as actividades desportivas são organizadas em parceria com associações locais e instrutores certificados. 

Diversificar receitas 

O misto.media pretende alcançar a autossuficiência financeira através de um modelo baseado em quatro fontes de financiamento: subscrições dos leitores, publicidade, apoios internacionais e filantropia empresarial. 

Neste momento, a maior parte do financiamento continua a ser assegurada pelos parceiros do sector tecnológico que participaram na criação do projecto. A publicidade representa cerca de 10% do orçamento e os subsídios internacionais aproximadamente 20%, destinados sobretudo a projectos específicos. 

A guerra continua, ainda assim, a impor desafios operacionais significativos. Os apagões provocados pelos bombardeamentos obrigaram a redacção a adaptar-se, recorrendo a estações de energia portáteis e a equipamentos com maior autonomia, como computadores portáteis de longa duração. 

Apesar das dificuldades, Yavorska acredita que os meios de comunicação locais desempenham um papel essencial na preservação da identidade das comunidades ucranianas, incluindo junto dos milhões de cidadãos deslocados para o estrangeiro.

(Créditos da imagem: Site do misto.media)