Redacções sem fins lucrativos nos EUA recorrem mais à Inteligência Artificial
A utilização de ferramentas de inteligência artificial nas redacções sem fins lucrativos dos Estados Unidos atingiu níveis recorde em 2025, mas o sector continua a enfrentar dificuldades relacionadas com financiamento, crescimento da audiência e sustentabilidade económica.
As conclusões constam da mais recente edição do Índice do Instituto para Notícias Sem Fins Lucrativos (INN). O relatório baseia-se principalmente nas respostas de 412 organizações membros da rede, representando 93% da sua filiação.
Segundo os autores, o estudo retrata um sector que continua a crescer, embora a um ritmo mais moderado, enquanto enfrenta desafios crescentes no plano operacional. “O campo está cada vez mais orientado para o jornalismo local e continua a expandir-se no seu conjunto, mas os obstáculos relacionados com financiamento e audiência permanecem significativos para muitas redacções”, referem os autores.
Inteligência artificial torna-se ferramenta comum
O crescimento da utilização de inteligência artificial foi uma das tendências mais marcantes identificadas pelo relatório. Em 2025, 81% das organizações inquiridas afirmaram utilizar ferramentas baseadas em IA, um aumento expressivo face aos 63% registados em 2024 e aos 34% observados apenas dois anos antes.
Apesar da rápida adopção, a maioria das redacções continua a evitar o uso da tecnologia para a produção directa de conteúdos editoriais. As aplicações mais comuns incluem a transcrição e resumo de reuniões, utilizadas por 60% dos membros do INN, e a análise de dados, referida por 36%.
A IA também está a ganhar espaço nas áreas de desenvolvimento institucional e angariação de fundos. Cerca de 22% das organizações utilizam estas ferramentas para personalizar comunicações com financiadores, 18% recorrem à IA para preparar candidaturas a subsídios e 11% usam-na para identificar potenciais doadores.
Na área de envolvimento com o público, 26% dos inquiridos afirmaram utilizar IA para produzir conteúdos para redes sociais ou personalizar mensagens dirigidas aos leitores.
O relatório revela ainda que 13% das organizações utilizam IA para extrair dados de websites, enquanto 19% adoptaram medidas para impedir que terceiros recolham dados dos seus próprios conteúdos através dessas tecnologias.
Abrandamento nas receitas
Embora a receita global do sector continue a aumentar, os resultados individuais mostram sinais de estagnação. O INN estima que as organizações membros tenham gerado mais de 750 milhões de dólares em receitas combinadas em 2025, um crescimento de 14% em comparação com o ano anterior e o valor mais elevado desde o início da recolha destes dados. No entanto, a receita mediana por organização diminuiu ligeiramente, passando de 532 mil dólares em 2024 para 525 mil dólares em 2025.
Ao mesmo tempo, as despesas medianas aumentaram de 434 mil para 449 mil dólares. Segundo o relatório, estes números indicam que muitas redacções estão a operar com margens mais reduzidas e a gerir os seus recursos com maior prudência.
O ritmo de criação de novos meios sem fins lucrativos também desacelerou. Apenas nove membros recentes do INN começaram a publicar em 2025, muito abaixo dos cerca de 20 lançamentos anuais registados em 2019 e 2020.
Os autores atribuem esta desaceleração à redução das oportunidades de financiamento e à crescente incerteza associada ao ambiente político polarizado.
Todos os novos projectos lançados em 2025 têm foco local. Actualmente, 54% dos membros do INN dedicam-se à cobertura local, acima dos 51% registados no ano anterior.
Tráfego web revela desigualdades
O relatório identifica diferenças significativas no desempenho das audiências digitais. As organizações com receitas anuais entre dois e cinco milhões de dólares registaram uma perda média superior a 41 mil visitantes únicos mensais.
Em contraste, os meios com receitas inferiores a dois milhões de dólares ganharam, em média, 9500 visitantes mensais, enquanto as organizações com receitas superiores a cinco milhões cresceram cerca de 40 800 visitantes.
Segundo os autores, os veículos de média dimensão parecem estar pressionados entre a forte fidelização das audiências locais e a capacidade dos grandes meios para dominar os motores de pesquisa e reforçar o reconhecimento da marca.
Uma tendência semelhante foi observada ao nível geográfico. Os meios nacionais e internacionais perderam, em média, mais de 37 mil visitantes mensais, enquanto os veículos locais e regionais registaram aumentos.
No total, 57% das organizações analisadas viram o tráfego crescer ao longo do último ano.
Newsletters mostram maior resistência
As newsletters continuam a destacar-se como uma das ferramentas mais eficazes para construir relações directas com o público. Apenas 16% das organizações que forneceram dados registaram uma redução do número de subscritores.
Os meios de pequena e média dimensão conseguiram aumentar as suas listas de distribuição, enquanto as grandes organizações nacionais enfrentaram maiores dificuldades para reter assinantes.
Segundo os autores, os subscritores de newsletters revelam maior estabilidade e fidelidade do que o tráfego proveniente de motores de pesquisa ou redes sociais.
Diversificação de receitas avança lentamente
O relatório identifica sinais de progresso na diversificação das fontes de financiamento. Em 2022, apenas 38% dos membros do INN obtinham receitas provenientes de quatro ou mais fontes distintas. Em 2025, essa percentagem subiu para 49%.
Apesar disso, a filantropia continua a ser a principal fonte de financiamento do sector: as doações individuais ganharam importância, representando actualmente 33% da receita, face aos 29% registados em 2023. Grande parte deste valor provém de grandes doadores, responsáveis por quase dois terços das contribuições individuais.
O ambiente político norte-americano continua a gerar preocupações entre os responsáveis editoriais. Segundo o relatório, 76% dos dirigentes das organizações inquiridas afirmaram ter sofrido impactos negativos relacionados com o contexto político actual.
As consequências mais frequentes incluem a redução de doações filantrópicas e o aumento da desinformação direccionada às suas audiências. As organizações de âmbito nacional e internacional foram as mais afectadas.
Apesar da profissionalização crescente do sector, os voluntários continuam a desempenhar um papel fundamental em muitas redacções. Quatro em cada dez organizações sem fins lucrativos afirmam contar com apoio voluntário, uma percentagem superior à registada em anos anteriores.
Mais de metade destes colaboradores participa directamente em actividades editoriais.
A dependência de voluntários é particularmente elevada nos meios locais, onde 53% das organizações recorrem a este tipo de apoio, mais do dobro da taxa observada entre os restantes meios.
(Créditos da imagem: Unsplash)