A pergunta “A inteligência artificial vai substituir o jornalista?” tornou-se um lugar-comum do debate contemporâneo — mas, como observa Marcelo Santos num artigo de opinião no Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI, pode estar mal colocada desde o início. “Há perguntas que, ao serem formuladas, já entregam o tamanho do que não serão capazes de compreender”, escreve.  

No centro da sua tese está a ideia de que a automação não chegou agora ao jornalismo, mas que, na verdade, ela já o acompanha há décadas. “A máquina já escreve sozinha há muito tempo”, recorda o autor, lembrando experiências desde a década de 1970, quando previsões meteorológicas e pequenos textos estruturados por dados já eram produzidos por sistemas automáticos. “Não era um fantasma na redacção. Era software, tabela, algoritmo, trabalho humano escondido no começo da engrenagem.”  

O que mudou, segundo o artigo, não foi a existência da automação, mas o seu lugar na cadeia de acesso à informação. A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta e passou a disputar a própria mediação entre público e jornalismo. “A novidade não é a máquina escrever uma nota sobre a chuva. A novidade é a reportagem deixar de aparecer como origem e passar a funcionar como infraestrutura invisível de uma resposta que parece nascer sozinha.”  

Marcelo Santos descreve uma mudança estrutural no ecossistema digital: durante anos, o jornalismo viveu de uma lógica de visita e clique, mesmo mediada por plataformas. Agora, porém, “a porta começa a comportar-se como casa”. Em sistemas como chatbots e mecanismos de busca com IA, o utilizador já não precisa chegar ao site da notícia. Muitas vezes, a resposta é consumida no próprio sistema.  

O relatório Journalism, Media, and Technology Trends and Predictions 2026, do Reuters Institute, indica uma queda de 33% no tráfego orgânico global vindo do Google para sites de notícias entre 2024 e 2025, chegando a 38% nos Estados Unidos.  

O impacto dessa transformação é interpretado pelo autor como uma passagem de uma “economia da visita” para uma “economia da extracção”: a inteligência artificial precisa do jornalismo para responder, mas não depende dele para devolver tráfego ou reconhecimento.  

Quando a fonte desaparece 

Uma das preocupações centrais presentes no texto é a diluição da autoria jornalística dentro das respostas geradas por IA. “Quando uma reportagem entra numa síntese e a marca do veículo jornalístico se apaga, não desaparece apenas um logotipo”, afirma o autor. “Desaparece a história de quem apurou, editou, bancou, errou.”  

Estudos citados no texto, como os do Tow Center for Digital Journalism e da Columbia Journalism Review, mostram falhas recorrentes de atribuição em sistemas de IA, com respostas que frequentemente citam fontes incorrectas ou inventadas. O problema, argumenta o autor, não é apenas técnico: “O erro de atribuição não é falha menor de rodapé. É uma rachadura na confiança.”  

O impacto desta mudança já chegou aos tribunais e aos acordos comerciais. O texto refere o caso da Folha de S.Paulo, que processou a OpenAI por alegado uso de conteúdos sem autorização, incluindo material de acesso pago e tráfego de bots de treino. Mais tarde, segundo o autor, o conflito evoluiu para um acordo de licenciamento e partilha de conteúdos. 

Outros grupos mediáticos seguem caminhos semelhantes. O texto menciona acordos entre meios como Le Monde e empresas de IA, assim como estratégias híbridas de grandes editoras internacionais que combinam litígio e colaboração.  

A disputa pela mediação  

Mais do que uma disputa sobre substituição de profissionais, o autor defende que o conflito real está na mediação da informação. “A disputa, portanto, não é pela frase. É pela mediação.”  

Neste novo paradigma, a inteligência artificial não elimina o jornalismo, mas pode torná-lo invisível: “Basta transformar fonte em insumo. Basta fazer do veículo uma presença citável, mas dispensável.”  

O risco apontado não é a produção de conteúdo em si, mas a perda da relação directa entre jornal, leitor e responsabilidade editorial.  

A fechar o artigo, o autor reforça a dimensão material e humana da produção jornalística, contrastando-a com a lógica dos sistemas automatizados. “A IA chama de dados aquilo que muitas vezes é reportagem.”  

E conclui com uma distinção que atravessa todo o argumento: enquanto a máquina pode sintetizar, o jornalismo continua dependente de trabalho situado, arriscado e humano. “Não sabe o que é insistir numa pergunta quando alguém poderoso tenta encerrar a conversa.”  

A questão, portanto, deixa de ser se a inteligência artificial vai substituir o jornalista — e passa a ser como o jornalismo pode evitar ser reduzido a matéria-prima invisível de sistemas que respondem, mas não se responsabilizam. 

(Créditos da imagem: Freepik)