Sabe-se há muito que o universo de profissionais sindicalizados em Portugal tem vindo a diminuir e que o Sindicato dos Jornalistas (SJ) não constitui excepção nessa erosão de associados.

De facto, se compararmos os 1 731 jornalistas inscritos no SJ, de acordo com os cadernos eleitorais para as eleições dos respectivos órgãos sociais, realizadas no final de Maio de 2024, com os 5 231 jornalistas activos, com carteira profissional, registados na Comissão da Carteira (CCPJ) no mesmo ano, a diferença é substancial – cerca de um terço - e reveladora do fraco interesse pela sindicalização no sector.

Talvez por isso o Sindicato resolveu abrir mão da exclusividade de ser participado apenas por jornalistas detentores da respectiva carteira, optando a sua actual direcção por uma proposta de alteração estatutária radical, que vai ser votada em assembleia geral extraordinária, alargando o âmbito à filiação de profissionais que "trabalham directa e principalmente na produção informativa”, incluindo “revisores de texto, paginadores, designers gráficos e de infografia, operadores de imagem e som, editores de imagem e vídeo, sonoplastas e engenheiros de som, realizadores e operadores de régie, arquivistas, secretários de redacção e agenda, produtores e assistentes de produção, web designers e programadores, gestores de redes sociais e outras vias de comunicação digital”.

A justificação para este despautério é que “é da mais elementar justiça integrar os nossos camaradas de redacção”. Um absurdo, até porque muitos desses mesmos profissionais já fazem parte de outros sindicatos.

É certo que a Casa da Imprensa fez algo parecido há alguns anos, passando a admitir trabalhadores de outras profissões de empresas de comunicação social e dos meios audiovisuais, incluindo, até, autores de obras literárias, científicas ou artísticas e seus familiares.

Fê-lo num contexto semelhante de quebra de associados, foi uma decisão igualmente controversa para uma associação que vivera, desde a sua fundação, como casa de jornalistas, mas a sua natureza mutualista não se confunde com um sindicato.

De facto, e descontadas algumas iniciativas de âmbito mais cultural ou relacionadas com os media, a Casa da Imprensa assumiu-se, vocacionalmente, como uma instituição de natureza solidária e assistencialista, sobretudo na área da saúde, disponibilizando uma importante rede de cuidados médicos e de serviços, que compensou, em parte, o desaparecimento da Caixa de Previdência dos Jornalistas, vítima da sanha persecutória do então primeiro ministro José Sócrates.

Ora, como escreve o jornalista José Luiz Fernandes, antigo dirigente sindical e critico frontal da proposta da direcção do SJ, trata-se de “uma amálgama sem sentido, que dissolve as fronteiras entre a profissão jornalística e funções técnicas e lança o SJ num pântano de equívocos, atraiçoando o seu legado histórico, reconfigurando a sua representação sociolaboral, e enfraquecendo o seu papel institucional no sector da comunicação social e na intervenção pública”.

Tem razão. E tem-na mais ainda quando suspeita que “haverá um motivo adicional e financeiro, embora não declarado, para a proposta. Face ao declínio do número de jornalistas sindicalizados, a direcção presumirá que abrir as portas a outras profissões é a solução mágica para equilibrar as contas”.

Na prática, do que se trata, é que esta declarada intenção de alterar os estatutos do SJ representa uma descaracterização profunda da identidade profissional e uma medida que desvirtua o papel histórico do sindicato.

Para que conste como declaração de interesses, note-se que o autor deste texto renunciou há muito à sua condição de sindicalizado, por ter discordado profundamente da orientação ideológica seguida pelo SJ, designadamente, durante o chamado PREC e posteriormente.

Mas, como jornalista titular de carteira profissional, nem abdica de acompanhar tudo o que respeite ao jornalismo, nem pode assistir indiferente ao descalabro implícito na referida proposta de alteração estatutária, que põe fim à especificidade profissional, misturando funções distintas, com a diluição da identidade, ao abrir portas a "actividades relacionadas com os media".

Adicionalmente, coloca-se ainda uma questão de incongruência ética e deontológica, sendo legitimo considerar que, em termos de opinião pública, a legitimação sindical de não jornalistas apaga a fronteira entre informação rigorosa e a opinião, comunicação ou marketing. Uma barafunda.

Em resumo: se continuasse filiado no Sindicato dos Jornalistas, esta seria uma excelente oportunidade para a desvinculação definitiva…