O futuro da Inteligência Artificial nos “media” está a ser construído agora
A rápida expansão da Inteligência Artificial (IA) está a transformar sectores económicos, sistemas de comunicação, processos de decisão e até estratégias militares, mas alguns especialistas alertam que a discussão sobre o futuro desta tecnologia já não pode ficar limitada às grandes empresas tecnológicas ou aos governos.
Num artigo de reflexão sobre os desafios contemporâneos da IA — publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI —, o jornalista Clayton Melo defende que a humanidade entrou numa fase decisiva da relação com esta tecnologia, exigindo um debate mais amplo sobre os seus impactos sociais, económicos, políticos e éticos.
“Está na hora de discutirmos que futuros a IA está a moldar – ou como usá-la para criar os futuros que sejam favoráveis aos humanos em vez de nos prejudicar”, escreve o autor.
Embora a Inteligência Artificial seja frequentemente associada aos avanços tecnológicos das últimas décadas, a ideia de criar formas artificiais de inteligência acompanha a humanidade há milénios.
Clayton Melo recorda os estudos da historiadora da ciência Adrienne Mayor, autora da obra Gods and Robots: Myths, Machines, and Ancient Dreams of Technology, segundo a qual os primeiros conceitos de criaturas artificiais remontam à Grécia Antiga.
“Muito antes de os avanços tecnológicos tornarem os dispositivos autónomos possíveis, ideias sobre a criação de vida artificial e robôs foram exploradas em mitos antigos”, afirmou Mayor numa entrevista à Universidade de Stanford, citada pelo autor.
Apesar dessas referências históricas, o nascimento formal da Inteligência Artificial moderna é geralmente associado à Conferência de Dartmouth, realizada em 1956 nos Estados Unidos, onde o termo “Artificial Intelligence” foi utilizado pela primeira vez.
Sete décadas depois, a IA tornou-se uma das tecnologias mais influentes do século XXI.
Para Clayton Melo, a discussão actual deve concentrar-se não apenas nas capacidades técnicas da Inteligência Artificial, mas sobretudo nos modelos de sociedade que poderão emergir da sua utilização.
Entre as preocupações destacadas pelo autor está o risco de aprofundamento das desigualdades digitais, caso o acesso às ferramentas e infraestruturas de IA permaneça concentrado num número reduzido de países e empresas.
Outro dos alertas diz respeito à crescente utilização da IA em contextos militares e de conflito: segundo o jornalista, tecnologias de inteligência artificial já desempenham um papel relevante em cenários de guerra contemporâneos, envolvendo grandes empresas tecnológicas no desenvolvimento de soluções aplicadas à defesa e à vigilância.
Papa Leão XIV pede que a IA seja “desarmada”
Uma das referências centrais do artigo é a encíclica Magnifica humanitas: Desarmar a IA, apresentada recentemente pelo Papa Leão XIV.
Clayton Melo considera o documento um marco no debate internacional sobre tecnologia e ética. “É o primeiro grande líder global a abordar, com profundidade e a devida seriedade, um tema decisivo para o mundo”, escreve.
No documento, o pontífice defende a criação de regras éticas para a utilização da Inteligência Artificial, especialmente em cenários de conflito armado, e alerta para a concentração do poder tecnológico em poucas organizações.
“A Inteligência Artificial deve ser desarmada”, afirmou o Papa. “A palavra é forte, eu sei, mas foi escolhida deliberadamente porque este momento precisa de palavras capazes de chamar a atenção, despertar as consciências e indicar o caminho a seguir para a humanidade”, acrescentou.
A encíclica defende ainda a protecção do emprego, a supervisão independente dos sistemas de IA e a criação de estruturas legais robustas para regular o desenvolvimento da tecnologia.
Benefícios e riscos coexistem
Os especialistas reconhecem que a Inteligência Artificial oferece benefícios significativos em áreas como saúde, educação, investigação científica e produtividade. A tecnologia já é utilizada no apoio ao diagnóstico de doenças como cancro e Alzheimer, além de potenciar novas formas de aprendizagem e análise de informação.
Contudo, o avanço da IA levanta questões éticas complexas. Clayton Melo cita o filósofo da tecnologia Mark Coeckelbergh, da Universidade de Viena, que questiona o grau de autonomia que a sociedade está disposta a conceder às máquinas.
“Quantas decisões e quanto dessas decisões queremos delegar à IA? E quem é o responsável quando algo dá errado?”, pergunta o investigador no livro Ética na Inteligência Artificial.
O autor destaca ainda preocupações relacionadas com preconceitos algorítmicos, privacidade de dados, desinformação e impactes ambientais associados ao treino de modelos avançados de IA.
Para Coeckelbergh, a ética deve ser incorporada desde a conceção dos sistemas, numa abordagem frequentemente designada por ethics by design.
Alinhar a IA aos interesses humanos
Uma das soluções apontadas por investigadores passa pelo chamado “alinhamento” da Inteligência Artificial aos valores e interesses humanos.
Clayton Melo recorre às ideias de Ethan Mollick, professor da Wharton School e autor de Cointeligência – a vida e o trabalho com IA. “Alinhar uma IA exige não apenas deter um possível deus alienígena como também levar em consideração esses outros impactos e o desejo de criar uma IA que reflicta a humanidade”, defende Mollick.
Segundo o académico, a governação da Inteligência Artificial exige uma articulação permanente entre empresas, governos, investigadores e sociedade civil. “Precisamos de normas e padrões acordados para o desenvolvimento e uso ético das IAs, moldados por meio de um processo inclusivo que represente diversas vozes”, afirma.
Comunicação social chamada a desempenhar papel central
Para Clayton Melo, a construção de um futuro tecnológico mais equilibrado depende também da literacia em IA da população. Nesse contexto, atribui à comunicação social uma responsabilidade acrescida na promoção do debate público sobre a tecnologia.
“Vejo os media e os profissionais de comunicação com um papel fundamental: os veículos devem promover debates, artigos, reportagens e informações sobre ética na Inteligência Artificial”, escreve.
O autor conclui que as decisões tomadas actualmente por empresas, governos e centros de investigação terão consequências duradouras para as próximas gerações. “O futuro está a ser construído agora”, alerta. “Isso não vai ser resolvido por uma comissão de notáveis. É um trabalho de todos nós.”
(Créditos da imagem: Freepik)