Sempre rádio, mas nunca igual
Bem podem protestar alguns ‘Velhos do Restelo’, mas os nossos mercados devem modernizar-se com padrões de medição já consolidados internacionalmente.
Mil e quinhentos profissionais de rádio, reunidos em Riga, no Radiodays Europe, produziram dias férteis em discussão, partilha e análise.
A indústria da rádio está virada para o que aí vem e para o que falta fazer. Não para o que foi feito. A gloriosa história da rádio é notável. Mas o próximo passo é sempre o melhor e mais urgente. Este sentido de urgência de servir melhor cada pessoa, nas mais variadas e diferentes circunstâncias da sua vida, é o que tem levado a rádio a nunca se cristalizar, mesmo quando são evidentes os seus sucessos. A arrogância é inimiga do sucesso.
Desafiada por si própria e pelas condicionantes que a cercam, a rádio procura consolidar a sua pegada nos diferentes territórios e plataformas em que multiplica presença e posicionamento.
Nesta edição do Radiodays desfilaram instrumentos e ferramentas para tornar os conteúdos da rádio e do áudio cada vez mais úteis e relevantes. A inteligência artificial, a navegar também pelas águas do research, é uma delas. Mas outras, também essenciais, são as ferramentas de medição do mercado.
Num ambiente de forte concorrência 360º, o áudio e a rádio precisam de instrumentos de medição que lhe façam justiça. Numa sessão muito concorrida, em Riga, foram apresentados casos de medição internacional que dão uma fotografia competente e competitiva dos mercados.
Esse é um patamar de discussão que já ninguém pode recusar. E há modos para comparar de forma séria e independente, não só a relevância da rádio e do áudio — linear e digital — mas também da televisão ou aquilo em que a ‘antiga’ televisão se está a transformar.
Bem podem protestar alguns ‘Velhos do Restelo’, mas os nossos mercados devem modernizar-se com padrões de medição já consolidados internacionalmente, como esta edição do ‘Radiodays’ confirmou.
A credibilização desse movimento impacta positivamente o investimento das marcas, conforme números apresentados em Riga, e reforça a confiança junto dos públicos.
Sem pessoas, as que produzem conteúdos e aquelas que os consomem, não há resultados. Nada há que substitua a visão e a sensibilidade humanas. A inteligência artificial é um instrumento precioso, mas precisa de human governance.
Esse é um dos takeaways mais consensuais desta edição do Radiodays. Não é uma novidade, longe disso, mas é importante reafirmá-lo, num contexto em que há um manifesto pendor para deslumbramentos tecnológicos.
Cabe-nos a todos — a quem de alguma forma detém responsabilidades nas empresas de media — preservar ou descobrir formatos de comunicação e curadoria verdadeiramente humanos e confiáveis, suportados pelas tecnologias mais aptas. Não se trata de procurar escravizar a qualquer custo, pessoas e marcas, como algumas plataformas tecnológicas começam a ser acusadas. Pelo contrário.
O desafio é permanecer desafiante no meio de contextos humanos e culturais, densos e incertos. Trabalhar sempre com paixão, suscitar fidelidade, valorizar credibilidade, confiança, clareza de objetivos, procurar a verdade, privilegiar a autenticidade e desafiar aquilo que delas nos afasta.
A Rádio, e a indústria do Áudio associada, têm um papel. E quanto mais humano for, mais relevante será.
*Administrador Grupo Renascença Multimédia
(Texto publicado originalmente em jornal digital Eco )