A controvérsia sobre a cobertura mediática no Irão
Durante os recentes bombardeamentos entre Israel e o Irão, a emissora estatal iraniana foi atingida por um míssil enquanto transmitia em directo. A pivô Sahar Emami, que apresentava a cobertura do conflito, declarou: “Ouvimos o som do agressor a atacar a verdade”.
O estúdio foi, depois, abalado por uma explosão, forçando a sua evacuação. Segundo as forças armadas israelitas, o alvo era um centro de comunicações “que o seu homólogo iraniano estava a utilizar sob o pretexto de ‘atividade civil’”, contudo, esta versão não foi verificada de forma independente.
Um artigo do Columbia Journalism Review conta que “os grupos de defesa da liberdade de imprensa nos EUA condenaram o ataque”. A Fundação para a Liberdade de Imprensa afirmou: “Bombardear um estúdio durante uma emissão em directo não impedirá o programa nuclear do Irão”. O Comité para a Protecção dos Jornalistas classificou o ataque como “chocante” e alertou que “este derramamento de sangue tem de acabar já”.
Após o ataque, a pivô Sahar Emami regressou ao ar a partir de um outro estúdio, embora a agência noticiosa estatal iraniana tenha confirmado a morte de dois colaboradores.
Jon Allsop, o jornalista responsável pelo artigo do Columbia Journalism Review, conversou com Kourosh Ziabari, jornalista e colaborador da revista New Lines. Ziabari criticou a forma como os meios de comunicação internacionais têm coberto o actual conflito: “Os pontos de discussão e a terminologia utilizada para descrever os diferentes aspectos desta crise multifacetada confirmam, infelizmente, a observação de que mesmo os defensores profissionais da objectividade jornalística não estão a conseguir defender este princípio”. Apontou a ausência de vozes iranianas na cobertura ocidental, o uso de linguagem suavizada sobre ataques israelitas e a desumanização dos iranianos.
A guerra também provocou divisões nos meios de comunicação norte-americanos, sobretudo entre os comentadores da direita. Enquanto figuras como o jornalista Mark Levin defendem uma posição intervencionista e apoiam a linha israelita, outros como Tucker Carlson, ex-apresentador da Fox, alertam contra uma nova intervenção no Médio Oriente, acusando a Fox News de fazer propaganda “para derrubar os telespectadores idosos da Fox e fazê-los submeter-se”.
Donald Trump, conhecido pela sua imprevisibilidade, tem oscilado entre apoiar os ataques e insistir num novo acordo com o Irão. “O que é claro há muito tempo é que, apesar dos anos de comentários que o classificam como isolacionista, a sua política externa sempre foi mais complicada do que isso - e, por vezes, desviou-se em direcções bastante ortodoxas e neoconservadoras”, refere o artigo.
Jon Allsop conclui o artigo, considerando que “é essencial que se voltem a colocar questões difíceis agora, pelas mesmas razões e por outras; mesmo considerados nos seus próprios termos, está longe de ser claro que os ataques actuais irão realmente pôr fim às ambições nucleares do Irão, ou catalisar uma mudança de regime, ou que a mudança de regime será desejável, se ocorrer. Todos os governos devem ser questionados de forma crítica sobre todos os pormenores das suas políticas. A história, normalmente, faz o seu julgamento mais tarde”.
(Créditos da imagem: Kashmir Observer)