Organizações de imprensa condenam espionagem sobre jornalistas italianos
“Desde 29 de Abril, sinto-me como se estivesse a viver numa história de espionagem”, confessou Ciro Pellegrino, director do gabinete de Nápoles do Fanpage.it, um meio de comunicação digital italiano conhecido pelo seu jornalismo de investigação que visa os mais altos cargos do governo. Tudo começou quando recebeu uma notificação da Apple, alertando para spyware no seu telemóvel. O seu chefe, Francesco Cancellato, editor-chefe, tinha recebido uma notificação semelhante meses antes, tornando-se o primeiro jornalista italiano identificado como alvo de vigilância com tecnologia de nível militar.
O spyware usado foi o Graphite, da empresa israelita Paragon Solutions — semelhante ao famoso Pegasus, com capacidade de aceder a mensagens encriptadas, câmaras, microfones e ficheiros privados sem deixar vestígios. Francesco Cancellato suspeita que o ataque ao seu telemóvel ocorreu através de um PDF malicioso enviado por WhatsApp.
A Fanpage.it expôs comportamentos radicais dentro do partido da primeira-ministra Giorgia Meloni, o Fratelli d’Italia. Apesar das condenações públicas de Meloni, afirmando que “não há espaço na Fratelli d'Italia para posições racistas ou anti-semitas”, ao mesmo tempo que distanciava o seu partido de qualquer forma de nostalgia extremista, Cancellato reconhece que o trabalho da equipa “irritou muita gente” e que isso pode ter motivado a vigilância.
Organizações de imprensa, sindicatos e ONGs reagiram com indignação. O Comité para a Protecção dos Jornalistas classificou o ataque como “uma grave violação dos direitos e liberdades dos jornalistas”, enquanto a coligação da ARTICLE 19 e do Instituto Internacional de Imprensa o descreveu como “mais um grave ataque à liberdade de imprensa”.
A FNSI (Federação Nacional da Imprensa Italiana) garantiu estar pronta a agir: “A liberdade de imprensa é um dos pilares da nossa Constituição”, afirmou Alessandra Costante, secretária-geral da instituição.
Apesar das denúncias, o governo italiano nega responsabilidade directa e insiste que nem os serviços secretos nem qualquer entidade estatal ordenaram a vigilância dos jornalistas. No entanto, o jornal La Repubblica revelou que os serviços secretos italianos admitiram usar o Graphite para monitorizar activistas de direitos dos migrantes, negando, contudo, ter espiado jornalistas. Ainda assim, como a Paragon só vende o spyware a organismos estatais, persistem dúvidas sobre envolvimento oficial.
“Aplicar o segredo de Estado a um acto desta gravidade é um erro, um erro grave”, criticou Vittorio di Trapani, presidente da FNSI. Entretanto, foram abertas investigações em cinco cidades sobre a alegada utilização do Graphite contra jornalistas e activistas.
Matteo Renzi, antigo primeiro-ministro italiano, afirmou à Reuters que “o escândalo Paragon não pode ser simplesmente posto de lado… Os responsáveis devem ser responsabilizados.”
Para Pellegrino, o telemóvel tornou-se na “caixa negra” da sua vida”, referindo-se ao impacto que este caso teve na sua privacidade e na protecção das suas fontes.
Cancellato diz não ter vontade de apontar o dedo ao governo, mas salienta que o mesmo “não está a fazer nada” para o ajudar a descobrir quem o espiou.
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