Os “chatbots” não substituem as fontes de informação
Um texto do Nieman Lab demonstra que os chatbots com inteligência artificial estão a ganhar espaço como fonte de informação e notícias, sobretudo nos Estados Unidos e na Índia, onde os utilizadores frequentes dizem confiar nestas ferramentas apesar de reconhecerem erros factuais e informação desactualizada. A conclusão é de um novo estudo do Centro de Notícias, Tecnologia e Inovação (CNTI), que analisou em profundidade os hábitos de consumo informativo de utilizadores regulares de chatbots.
De acordo com dados do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo (RISJ), divulgados no Verão passado, cerca de 7% dos inquiridos nos EUA recorrem semanalmente a chatbots para se informarem. Na Índia, o número aproxima-se dos 20%.
O estudo do CNTI baseia-se em entrevistas aprofundadas a 53 participantes nos EUA e na Índia, os dois maiores mercados do ChatGPT. Todos os inquiridos utilizavam chatbots pelo menos uma vez por semana e afirmavam acompanhar a actualidade de forma regular. Entre as ferramentas mais usadas surgem o ChatGPT, o Copilot da Microsoft e os produtos de IA da Google, como o Gemini.
Segundo os investigadores, muitos participantes não identificavam a sua utilização como “consumo de notícias”, mesmo quando os resultados citavam múltiplos órgãos de comunicação social. “Muitas das pessoas que entrevistámos não consideravam necessariamente o que estavam a fazer como ‘notícias’, mesmo que o resultado citasse dezenas de notícias”, explicou Jay Barchas-Lichtenstein, gestor sénior de investigação da CNTI. “Não se consegue elaborar uma boa pergunta para um inquérito até se ter bastante certeza de quais são os comportamentos e como as pessoas falam sobre eles.”
O relatório conclui que, para já, os chatbots não substituem as fontes tradicionais. A maioria dos utilizadores continua a recorrer a jornais, agregadores e assinaturas digitais, usando os chatbots como complemento. Um entrevistado norte-americano afirmou que mantém o Google News como principal agregador e assina o The New York Times e dois jornais locais, apesar de utilizar frequentemente o ChatGPT.
Ao contrário do que poderia esperar-se, os utilizadores raramente recorrem aos chatbots para simples resumos das manchetes. Em vez disso, procuram informação prática para apoiar decisões concretas. Os investigadores comparam esta utilização ao chamado “jornalismo de serviço”, sublinhando que os chatbots são “menos propensos a manter as pessoas informadas sobre as últimas notícias e mais propensos a influenciar as suas acções”.
Nos EUA, os participantes usaram chatbots para compreender nomeadamente as alterações fiscais ou os seus direitos legais perante acções das autoridades de imigração. Um entrevistado chegou a pedir a um chatbot que indicasse em quem votar numa eleição.
Na Índia, os utilizadores revelaram uma maior propensão para pedir previsões directas, incluindo sobre preços do Bitcoin, análises de sectores bolsistas ou até mapas astrológicos, mesmo quando reconheciam ter perdido dinheiro com conselhos anteriores.
Uma das conclusões mais relevantes do estudo prende-se com o elevado nível de confiança depositado nos chatbots. Apesar de apontarem “erros factuais crónicos” e limitações na catualização da informação, os utilizadores tendem a perdoar rapidamente essas falhas. “Essas deficiências não eram impeditivas”, sublinha o relatório, em contraste com a desconfiança manifestada em relação aos media tradicionais.
Nos EUA, os inquiridos referiram preocupações com o enviesamento político da imprensa; na Índia, apontaram o sensacionalismo e o alinhamento com interesses corporativos. Segundo o Relatório de Notícias Digitais do RISJ referente ao ano passado, apenas 30% dos norte-americanos e 43% dos indianos afirmam confiar nas notícias em geral.
Em comparação, os chatbots são frequentemente vistos como fontes “neutras” e equilibradas. Muitos utilizadores interpretam a presença de citações e fontes como “uma garantia de precisão”, embora raramente verifiquem a informação.
Um participante resumiu a experiência como uma proposta “80/20”: “Dão-me 80% da informação com 20% do esforço, mas é preciso ter cuidado ao considerar esses 80% como garantidos.” Para Barchas-Lichtenstein, esta atitude explica-se porque os utilizadores “esperam algo suficientemente bom, em vez de perfeito”.
O estudo aponta ainda a interactividade como um factor-chave da confiança. Os utilizadores sentem-se parceiros no processo informativo, corrigindo ou afinando as respostas do chatbot. “A interactividade parece permitir segundas oportunidades, enquanto os inquiridos não têm essa paciência para textos fixos”, observam os investigadores.
No final, conclui o relatório, aquilo que os chatbots perdem em rigor absoluto acabam por compensar com uma forte sensação de controlo e autonomia. “As pessoas querem ajuda para fazer julgamentos, mas não querem que a decisão seja tomada por elas”, resume Barchas-Lichtenstein.
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