A introdução da inteligência artificial generativa, também conhecida por GenAI, está a transformar profundamente a forma como grandes meios de comunicação reinventam os seus artigos em formato áudio. Desde a BBC ao Bergens Tidende, passando pelo Business Insider e pela TIME, o The Fix conta como têm surgido novas experiências que procuram tornar o áudio mais localizado, personalizado e interactivo, ampliando assim o alcance das notícias. 

Um dos desenvolvimentos mais marcantes é o caso da BBC, que lançou o piloto “My Club Daily”, boletins áudio com notícias sobre cinco clubes da Premier League (Liverpool, Aston Villa, Newcastle, Southampton e Plymouth), narrados com gírias locais geradas por IA. A emissora sublinha que produzir estas versões manualmente seria “proibitivamente caro”, mas que a iniciativa pretende “alcançar novos públicos, especialmente aqueles com deficiência visual”. O processo usa conteúdos jornalísticos da BBC, rascunhos produzidos via ChatGPT e locuções sintetizadas pela ElevenLabs, sempre com supervisão humana. 

Uma experiência semelhante ocorreu na Noruega, onde o Bergens Tidende criou a primeira voz sintética com sotaque local. O editor de desenvolvimento, Jan Stian Vold, afirma que “a identidade local é talvez o principal diferencial”, razão pela qual exigiram desde o início que a voz tivesse “um sotaque típico de Bergen”. Após um rigoroso processo de selecção e gravação, a voz – baseada na jornalista Eir Stegane – tornou-se um sucesso, com Vold a destacar que “a maioria ficou impressionada com a qualidade da voz”. Actualmente, o jornal regista entre 3 mil e 4 mil reproduções diárias, um aumento de 50% face ao lançamento, chegando sobretudo a pessoas com deficiência e a leitores jovens. “Este serviço alarga o nosso alcance e torna-nos úteis para mais leitores”, resume o editor. 

Bergens Tidende conta com uma vasta biblioteca de artigos convertidos automaticamente para áudio e começou também a testar playlists personalizadas, geradas por algoritmos, aproximando o consumo de notícias do modelo Spotify. Segundo Vold, esta abordagem revela o potencial da “personalização de formatos”, algo que poderá vir a transformar a distribuição noticiosa. 

Business Insider segue a mesma linha, ao introduzir um resumo áudio personalizável, actualizado em tempo real. Os leitores podem escolher que temas querem aprofundar ou ser encaminhados para a notícia completa. O jornal promete ampliar as opções de personalização, visando dar aos utilizadores “controlo total sobre a forma como consomem notícias”. A integração desta funcionalidade com a sua ferramenta de pesquisa em IA já levou a um aumento superior a 50% nos cliques. 

A inovação avança ainda para o campo da interacção áudio, com a TIME a estrear uma solução que transforma o seu boletim The Brief numa conversa entre dois bots, Henry e Lucy. O guião, gerado pela OpenAI, é convertido em diálogo através do GPT-4o-mini-TTS, com vozes desenvolvidas pela ScaleAI a partir da biblioteca da OpenAI. Com esta abordagem, a TIME procura responder a tendências identificadas no Inquérito do Instituto Reuters de 2025, que mostra que os mais jovens preferem conteúdos “com personalidades marcantes” ou formatos simplificados, e que conversas podem ajudar a chegar ao público que tende a evitar notícias. 

No seu conjunto, estes projectos demonstram que a IA também cria novas oportunidades para tornar o jornalismo mais acessível, mais personalizado e mais próximo das rotinas do público. A tecnologia oferece, assim, uma forma “economicamente viável” de experimentar e, acima de tudo, de adaptar a informação aos hábitos de consumo contemporâneos. 

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