A vaca sagrada - Na semana passada subiram aos céus vozes indignadas pelo anúncio de mudanças na RTP. Para um sector da opinião pública, mas sobretudo da opinião política, a RTP é uma espécie de vaca sagrada intocável à qual tudo se deve permitir.

As mudanças agora anunciadas foram justificadas pela perda de audiências, que é real em todos os canais de televisão do grupo, mas não é o seu problema fundamental.

Há muito tempo que o conceito de serviço público se foi desvanecendo e a maior parte das recentes mexidas já devia ter sido feita, mas este CA da RTP tem uma inércia considerável.

A reestruturação agora anunciada tem coisas positivas como a remodelação da área da informação e alterações na direcção de canais da rádio e televisão. Mas é insuficiente, continua a faltar coragem para diminuir o número de canais como, por exemplo, fazer um só canal internacional e, sobretudo, definir com clareza o papel de cada um sem criar ghettos.

O maior equívoco, no entanto, é considerar que a perda de audiências é o grande problema da RTP, quando, na realidade, o seu grande problema é a irrelevância de conteúdos, em termos de serviço público, quer na programação, quer na informação.

A RTP funciona por quintas, entre direcções de canais das diversas áreas, o que provoca uma clara falta de coerência de actuação aos mais diversos níveis.

A solução para isto seria seguir o modelo, existente em tantos grupos de mídia, ter um Director-Geral que garantisse a coordenação de acordo com os perfis de cada canal e os alvos de público que pretende fixar, alguém que supervisionasse e harmonizasse a programação e a informação dos vários canais e, sobretudo, os enquadrasse dentro do espírito de serviço público, complementar e não concorrencial aos canais privados.

Por exemplo, a RTP gasta uma verba importante do seu orçamento nos direitos de transmissão dos jogos da selecção portuguesa, da Taça de Portugal e de outros jogos, aos quais acrescem os custos técnicos e humanos da operação, que não são pequenos.

Esta tradição vem do tempo em que não havia outros canais para os emitir e justificava-se para garantir o acesso do público à transmissão dessas provas desportivas em sinal aberto.

Hoje essa razão não existe, os canais privados teriam aliás interesse em ser eles a fazer essa transmissão, mas a RTP assume como serviço público uma coisa que de facto já não é.

Do meu ponto de vista, questões como o reforço da informação regional, a produção de programação infantil, a criação de mais documentários  e séries de ficção nacionais são de facto áreas onde faz sentido o serviço público investir meios. 

Na informação, a RTP preocupa-se mais com as guerras em S. Bento, Belém e nas sedes dos partidos do que o que se passa no resto do país.

Os debates que promove são maioritariamente sobre tricas da capital política, através de comentadores que são eles próprios políticos, meros megafones das posições partidárias.

Protegida por um CGI que teoricamente seria um Conselho Geral Independente mas que é, na verdade, um colégio de comissários políticos que bem merecem o nome de Conselho Geral Inútil, a RTP tornou-se maioritariamente um serviço dispensável, dando assim razão aos que não percebem, ou não querem perceber, como é importante existir um serviço público audiovisual.

Já agora, comissários políticos por comissários políticos, mais valia extinguir o CGI e voltar a colocar a RTP nas mãos da Assembleia da República. Ganhava-se transparência.

Texto publicado originalmente no Jornal de Negócios