Dolorosa transição…
Quase esgotado o primeiro quarto do século XXI é forçoso reconhecer que nunca a incerteza foi tão espessa sobre o futuro mediático próximo.
O desgaste observa-se à vista e as melhores convicções sobre a solidez dos principais grupos de media têm vindo a ser abaladas pela circunspecta crueza das coisas.
A imprensa em suporte de papel parece ter entrado num declínio irreversível, tanto aquela que se reclama ainda de circulação nacional, como a regional e local, que se supunha ser mais resiliente.
Basta consultar os dados das tiragens, divulgados regularmente pela APCT (Associação Portuguesa de Controlo de Tiragens), para se adivinhar, sem esforço, o fim próximo de não poucas publicações.
Os jornais que resistem, ainda diários, generalistas e até desportivos, têm tiragens tão modestas, que põem já em causa a viabilidade da única distribuidora que os coloca nas bancas.
Longe vão os tempos em que os principais títulos, matutinos ou vespertinos - estes há muito extintos - competiam entre si, com estruturas e frotas próprias de distribuição.
Era o tempo, também, do bulício do Bairro Alto - o “bairro da tinta” -, quando a maioria dos jornais tinha ali as suas redacções e rotativas, e os ardinas acudiam em peso às “casas da venda” para serem os primeiros nos seus destinos.
Não faltam agora as vozes e os “especialistas” a ditarem que a imprensa, como a conhecemos, tem os dias contados, vítima da instantaneidade do digital, da televisão ou, ainda, das redes sociais.
Os argumentos a favor da saúde da Imprensa são escassos. E o mais elementar realismo aconselha uma análise prudente, na qual, com boa vontade, se poderá encarar a sua sobrevivência como nicho, talvez mais voltada para a especialização, e para um público mais culto e exigente - ou, simplesmente, afeiçoado às virtudes intimistas e personalizadas do papel.
Em reforço desta tese, há quem lembre o cinema, que, a certa altura, parecia irremediavelmente condenado pela televisão, ou o próprio livro, comprometido pelo advento de equipamentos de leitura digital.
Se os piores receios não se confirmaram, o certo é que estamos a viver um período complexo, que vai sacrificar muitas empresas, e criar fortes constrangimentos ao jornalismo, agravando a precariedade do mercado de emprego.
O jornalismo enfrenta, aliás, um dos mais agudos desafios que se lhe colocam, devido à convergência da Inteligência Artificial com as redes sociais, promovendo, em particular, a deserção do papel das gerações mais jovens.
Pior; segundo um estudo recente da Universidade de Stavanger (Noruega), quase 40% da Geração Z tem dificuldade em escrever à mão, o que acresce à aversão ao papel destes verdadeiros nativos digitais, trocado sem cerimónia por telemóveis, tabletes ou computadores. A escrita humana está a ficar pelas “ruas da amargura”…
Só que a incapacidade da escrita à mão, não é apenas susceptível de comprometer o desenvolvimento cognitivo, como arruinar a memória futura das nossas referências culturais, sacrificadas no altar do digital.
O que acontece quando ocorrerem fenómenos extremos, como o do “apagão” ibérico, que deixou às escuras, durante largas horas, milhões de pessoas indefesas e assustadas com a sua possível incomunicabilidade e o reconhecimento da sua vulnerabilidade?
Voltando ao papel: é verdade que Portugal não é, neste aspecto, um caso isolado, mas será, sem dúvida, uma das primeiras vítimas dessa profunda mudança conceptual, até pela pequenez do seu mercado.
Costuma dizer-se que somos um país que lê pouco, o que é um facto facilmente comprovável.
Por isso, somos mais permeáveis às transformações, quer por via da concorrência das chamadas plataformas globais, quer, também, por causa de arrivismos oportunistas, de quem percebeu que os media podem ainda ser um veículo de certa influência, servindo como biombo para a vaidade de muito “chico esperto” ou “pato bravo“…
À insolvência confirmada de uns junta-se o risco iminente de colapso de outros. O tráfego das más noticias ganha força. E o desemprego ganha terreno.
O jornalismo arrisca-se a ficar à mercê de aventureirismos que “pegam de estaca”. E a democracia ressente-se e interroga-se. Dolorosa transição.