Num artigo recente, publicado no Observador, o historiador Rui Ramos interroga-se na sua coluna habitual sobre as razões por que “quando têm de entrevistar o líder do Chega, os jornalistas e comentadores ficam de repente estúpidos?”. E antes de procurar uma resposta acrescenta que “a cena repete-se há anos.”

Ou seja, “ninguém parece querer ou ser capaz de fazer perguntas a André Ventura”.

Rui Ramos, que não é jornalista, mas que está entre os fundadores do Observador ( um projecto jornalístico de centro-direita, lançado em maio de 2014, que conquistou rapidamente uma audiência invejável, cobiçada,  a partir de certa altura,  por muita gente de esquerda, que tem procurado mostrar-se nas suas  colunas) , conhece bem o meio e não peca por timidez nas suas análises. E, infelizmente, tem razão.

O que escreve sobre as entrevistas em cascata a André Ventura, sobretudo nas televisões, pode aplicar-se a outras, onde os entrevistados são recebidos com sorrisos ou rostos fechados, consoante as simpatias ideológicas dos jornalistas de serviço.

Há um clube mediático fechado, integrado por jornalistas e comentadores, que, salvo honrosas excepções, funciona em “bolha”,  com os seus membros activos a imitarem-se  uns aos outros, tal como acontece nos alinhamentos dos telejornais, que seguem, na maior parte dos casos,  o mesmo modelo.

E quem não faz parte desse círculo fechado, seja jornalista, comentador ou político, ou, simplesmente, agente económico, fica muitas vezes de parte, sem direito a intervir e a ter uma palavra.

Há muito que as televisões e a Imprensa, sem esquecer a rádio, se pautam por critérios de esquerda ou esquerdizantes, como se a ideologia residente fosse exclusivamente essa, enquanto no País não é isso o que se passa. As consequências estão à vista, com o afundamento, cada vez mais evidente, de jornais e de outros media.

As entrevistas, em particular as televisivas, costumam ser um excelente indicador do “estado de alma” e da prática das redacções e mesmo de jornalistas proeminentes.

Há cordialidade e perguntas inofensivas se o entrevistado é da cor ideológica do entrevistador, ou secura e rudeza, se o entrevistado pertence a outra família política. É algo que se nota mesmo em alguns “pivôs” e jornalistas seniores.

Recorda a propósito Rui Ramos que “o cerco que a esquerda e parte da direita montaram a André Ventura não dissuadiu 1,5 milhões de portugueses de fazerem do Chega, em seis anos, o segundo maior partido parlamentar. Não se deixaram intimidar”.

E enfatiza o historiador que “aqueles que lutam por empregos, posições e destaque no sistema mediático, esses, sim, ficaram apavorados”.

Mais uma vez tem razão. No pós 25 de Abril as redacções fizeram uma trajectória alucinante da direita para a esquerda e, mesmo alguns fieis do regime anterior, apressaram-se a “virar a casaca” e até, com despudor, a explicarem a sua mudança, alegando terem sido “infiltrados”. A precariedade no emprego que ressalta hoje nas redacções fez o resto.

As entrevistas aos candidatos presidenciais declarados e os entediantes comentários que habitualmente se lhes seguem - agora “apimentados” com pontuações que estão na moda -, só poderão confirmar essa falta de isenção e de equilíbrio entre quem entrevista ou comenta.

Na lógica do paradoxo, se não for assim, será uma agradável surpresa…