Asociación de la Prensa de Madrid (APM) divulga um testemunho recolhido pelos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) que evidencia a resiliência dos meios de comunicação social ucranianos, os quais continuam a assegurar a sua missão informativa apesar de condições particularmente adversas, marcadas por bombardeamentos, cortes prolongados de electricidade, frio extremo e insegurança permanente. 

Segundo os RSF, os ataques russos contra as infraestruturas energéticas afectam directamente o panorama mediático do país, fragilizando o funcionamento das redacções e colocando em risco a continuidade do serviço público de informação. Pauline Maufrais, responsável pela Ucrânia nos RSF, sublinha que “os ataques russos contra as infraestruturas energéticas enfraquecem todo o ecossistema mediático ucraniano”, alertando para a necessidade de apoio internacional sustentado, não apenas emergencial, mas de longo prazo. A responsável acrescenta que estes jornalistas, que continuam a trabalhar “apesar do frio glacial nas suas redacções e nas suas casas”, devem dispor de meios técnicos adequados para prosseguir a sua missão informativa. 

A situação agravou-se significativamente no início de Janeiro, quando uma vaga de frio excepcional, com temperaturas a rondar os 20 graus negativos, coincidiu com uma intensificação dos ataques russos. As autoridades ucranianas declararam o estado de emergência energética, e em Kiev a crise tornou-se tão severa que o presidente da câmara chegou a pedir à população que abandonasse a cidade. A 21 de Janeiro, quase 60% dos habitantes da capital permaneciam sem electricidade, para além das falhas no abastecimento de água e aquecimento. 

A directora da Hromadske Radio, Ruslana Brianska, relata aos RSF que a emissora passou a trabalhar com severas restrições energéticas: “Em caso de corte total de electricidade, podemos permanecer no ar por seis horas no máximo”. Embora o edifício onde se situa a rádio seja classificado como infraestrutura crítica, o que anteriormente garantia fornecimento contínuo de energia, essa protecção deixou de ser suficiente face à dimensão dos ataques. Ainda assim, a rádio mantém a emissão, embora com tempo de antena reduzido, e procura um escritório de emergência para garantir a continuidade do serviço, inclusive para as zonas próximas da frente de combate e para os “territórios temporariamente ocupados”. 

A precariedade das condições de trabalho é também descrita por Yevheniia Motorevska, responsável pelo departamento de investigação de crimes de guerra do The Kyiv Independent. No seu escritório, explica, “a temperatura oscila entre os 11 e os 13 graus. Nestas condições, é difícil concentrar-se". Muitos jornalistas enfrentam cortes de electricidade durante três ou quatro dias consecutivos, com interrupções diárias que podem durar entre 10 e 12 horas, situação agravada pelo impacto psicológico dos bombardeamentos recorrentes. Como resume Motorevska, “todos têm falta de sono”

Apesar de cerca de 600 mil pessoas terem abandonado Kiev desde 9 de Janeiro, a quase totalidade da redacção do The Kyiv Independent decidiu permanecer na cidade, determinada a continuar o seu trabalho jornalístico. Está mesmo prevista a estreia de um documentário em Fevereiro, embora a jornalista admita a possibilidade de uma evacuação forçada caso ocorra um corte total de energia superior a cinco dias. 

Perante este cenário, os meios de comunicação adaptaram-se com soluções de emergência: geradores, baterias externas, estações de carregamento e equipamentos energéticos móveis. O The Kyiv Independent reforçou o número de baterias disponíveis tanto no escritório como nas casas dos jornalistas. Paralelamente, organizações ucranianas como o Instituto de Informação de Massa (IMI), parceiro dos RSF, acolhem jornalistas em centros de comunicação social aquecidos e equipados com geradores em 14 regiões do país. 

Os RSF afirmam ter fornecido equipamento energético a mais de 200 meios de comunicação social ucranianos desde o início da invasão em grande escala. Em 2025, a organização lançou, em conjunto com oito entidades ucranianas, o Fundo Internacional para a Reconstrução dos Meios de Comunicação Ucranianos (IFRUM), destinado a mobilizar apoio financeiro para os meios de comunicação. 

Como recorda a Asociación de la Prensa de Madrid, este esforço ocorre num contexto em que a Ucrânia ocupa a 62.ª posição no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF em 2025, enquanto a Rússia surge na 171.ª posição, sublinhando o contraste entre a resiliência do jornalismo ucraniano e a repressão sistemática da liberdade de imprensa no país agressor.

(Créditos da imagem: RSF)