Um estudo de 2025 da Fundação Gabo mapeou os desertos de notícias em cinco países da América Latina: Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru. Concluiu que mais de 65% do território analisado apresenta condições precárias para a prática do jornalismo. Nessas áreas, a cobertura informativa é limitada por constrangimentos económicos, políticos ou de segurança. 

Ainda assim, existem redacções e repórteres que resistem. O Instituto Reuters entrevistou sete jornalistas da Colômbia, Argentina, Peru, Honduras e México, e surge um retrato comum: são projectos criados por necessidade, para preencher lacunas deixadas pelos grandes meios de comunicação nacionais. 

O abandono das periferias informativas 

Em muitos países, os grandes meios de comunicação concentrados nas capitais reduziram a cobertura regional devido aos custos elevados de manter correspondentes e equipas de investigação. Manuel Boluarte, director do meio digital peruano Inforegión, dedicado a investigações ambientais, afirma que essa retirada deixou espaço para economias ilegais influenciarem a informação local. Tráfico de droga, mineração ilegal ou exploração madeireira são alguns exemplos. “As economias ilegais têm muito dinheiro e penetram nas instituições, penetram nas forças armadas, então como não teriam impacto nos media?”, disse. 

Também na Argentina, Judith Calmels criou o Plottier Conecta para dar voz a uma comunidade ignorada pelos media da capital. Segundo ela, quando os grandes meios cobrem essas regiões, fazem-no de forma superficial e centrada nas agendas oficiais, deixando de fora o quotidiano das pessoas. “Eu queria contar as histórias cotidianas de pessoas que podem ser nossos vizinhos, que têm uma história para contar e não têm espaço nos media”, explicou a jornalista. 

Essa lógica repete-se em toda a região: territórios considerados pouco lucrativos tornam-se desertos informativos. 

Projectos financeiramente precários 

Os novos meios locais enfrentam condições ainda mais difíceis do que as redacções tradicionais: equipas reduzidas, poucas receitas e maior exposição a pressões políticas e comerciais. 

A jornalista mexicana Alondra Reséndiz, que lançou o boletim Ramaje para cobrir estados do sudeste do México, descreve um cenário “desanimador” e sublinha que muitos jornalistas precisam de outros empregos para sobreviver. 

Na Colômbia, Germán García, do meio Entre Ojos, resume a situação dizendo que estes projectos vivem “quase à mercê de Deus”. “Acreditávamos que o nosso jornalismo seria suficiente para atrair pessoas que pudessem financiar o nosso trabalho e pensávamos na publicidade como a única fonte de receita, mas deparámo-nos com o facto de que o nosso jornalismo não era tão atraente para os anunciantes”, disse ele. A publicidade privada é escassa e a dependência de financiamento público coloca em risco a independência editorial. 

Apoio governamental: sim ou não? 

Para muitas redacções, a publicidade estatal é uma das poucas fontes de financiamento disponíveis, mas implica riscos. Anabilec Martínez, da Extrategia Medios (Colômbia), conta que o apoio institucional diminui sempre que publicam investigações críticas sobre autoridades locais. 

Outros meios optam por recusar completamente esse financiamento. É o caso do jornal colombiano El Morichal, que perdeu grande parte das suas receitas ao cortar ligações com o Estado, mas ganhou autonomia editorial. “O nosso objectivo é monitorizar as autoridades governamentais locais. Por isso, decidimos não aceitar receitas publicitárias dos governos estaduais e municipais. Isso reduziu significativamente os nossos recursos, tirando 70% ou mais da nossa receita. Mas sentimo-nos muito mais confortáveis e à vontade.” 

No entanto, a viabilidade financeira continua a ser um problema estrutural, agravado pelos custos logísticos de trabalhar em regiões remotas, desde viagens de reportagem dispendiosas até à distribuição física de jornais. 

Dependência de subsídios e doações 

Muitos destes meios sobrevivem graças a bolsas internacionais, subvenções e doações. Contudo, desde 2025, vários financiadores internacionais começaram a reduzir o apoio ao jornalismo, aumentando a incerteza. 

Alguns projectos tentam diversificar receitas, como o Inforegión, que combina publicidade, consultoria e apoio institucional. Outros seguem modelos comunitários, como a rádio hondurenha La Voz Lenca, sustentada por contribuições da própria população: “[A estação de rádio] é mantida pelo próprio povo. Por exemplo, quando a estação de rádio está em situação crítica, declaramos estado de emergência e as comunidades assumem a responsabilidade de manter a estação de rádio e unem-se para arrecadar fundos”, explicou Selvin Milla, membro da equipa da rádio. 

Riscos de segurança e pressões locais 

Além das dificuldades financeiras, os jornalistas enfrentam riscos físicos reais. Em regiões da Colômbia com presença de grupos armados, repórteres já foram ameaçados e obrigados a esconder-se. Edwin Suárez partilhou o seu testemunho: “Sentimos a presença de grupos armados o tempo todo, e estamos a fazer reportagens sobre eles. Estando lá, senti-me muito vulnerável porque não há polícia, não há nada. É uma área rural onde esses grupos estão no controlo”.  

A proximidade com as comunidades também aumenta a vulnerabilidade: jornalistas que investigam corrupção ou crime organizado tornam-se alvos directos de represálias. Em alguns casos, existem redacções que optam por medidas de protecção, como manter escritórios em locais discretos ou transferir investigações sensíveis para grandes meios nacionais. 

Apesar das dificuldades, estes jornalistas continuam a trabalhar porque veem o seu papel como essencial para a democracia local. 

Projectos como Entre Ojos aprofundam temas ambientais ignorados pelos grandes meios. O Ramaje tenta descentralizar a cobertura mediática mexicana. A La Voz Lenca funciona não apenas como meio de comunicação, mas como infraestrutura social — transmitindo mensagens pessoais, informação agrícola e notícias essenciais para comunidades isoladas. 

Para muitos destes profissionais, a missão é clara: dar voz a populações historicamente marginalizadas e garantir que não desaparecem do mapa informativo.

(Créditos da imagem: Pexels)