Estudar jornalismo na Rússia com censura em tempo de guerra
Segundo o The Fix, estudar jornalismo na Rússia após a invasão da Ucrânia, em 2022, tornou-se uma experiência profundamente marcada pela censura, pelo medo e pela autocontenção, tanto dentro como fora das universidades. A repressão à liberdade de expressão intensificou-se de tal forma que muitos jornalistas profissionais abandonaram o país. Importa, por isso, perceber alguns testemunhos de estudantes de jornalismo que permaneceram na Rússia.
Nastya, nome fictício, era estudante de jornalismo em Irkutsk à data do início da guerra e descreveu um clima de tensão constante e silêncio forçado. Mesmo antes do conflito, já era difícil abordar certos temas em sala de aula, mas, após Fevereiro de 2022, o receio tornou-se generalizado. “Era assustador até mesmo mencionar esse tema na frente dos professores, ninguém sabia como eles reagiriam”, recordou. O dia do anúncio da mobilização militar geral, em Setembro de 2022, ficou-lhe particularmente marcado: “Um murmúrio alto espalhou-se pela sala de aula, e o professor mandou-nos calar a boca e parar de falar sobre isso”.
De acordo com o testemunho recolhido pelo The Fix, esta atitude passou a ser regra. Os professores evitavam discutir a guerra ou a actualidade, impedindo os estudantes de debater notícias e acontecimentos. “Parecia que eles não sabiam de nada, mas todos nós entendíamos o motivo”, observou Nastya.
Vladimir, que estudava jornalismo em São Petersburgo, relatou uma mudança no currículo e na atmosfera universitária após o início da guerra. Temas anteriormente aceitáveis, como direitos humanos ou política internacional, tornaram-se praticamente proibidos. Os estudantes foram advertidos a não participar em protestos anti-guerra, e muitos acabaram expulsos. Professores com visões mais liberais abandonaram as instituições e foram substituídos por docentes com pouca experiência jornalística, mas frequentemente com formação militar. O próprio currículo foi adaptado à narrativa oficial, incluindo trabalhos sobre as chamadas “novas regiões”, expressão usada para designar os territórios ucranianos ocupados e anexados pela Rússia em 2022. Como resumiu Vladimir: “Todos nós entendemos perfeitamente o que isso significa”.
Para alguns estudantes, paradoxalmente, foi precisamente a guerra que despertou o interesse pelo jornalismo. Kira decidiu inscrever-se no curso em São Petersburgo após o início da invasão russa: “Comecei a ler as notícias constantemente, e a minha compreensão da profissão, do que eu precisava para continuar humana, tudo isso de repente ficou claro e cristalizou-se no jornalismo”, explicou. Ainda assim, mostrou-se profundamente crítica em relação ao ensino recebido: “Ninguém fala connosco sobre a profissão em si”, acrescentando que a visão dos professores parece “ter parado em algum momento no início dos anos 2000”. Segundo Kira, os docentes ensinam os alunos a aceitar um “corredor cada vez mais estreito do que é permitido”, levantando dúvidas sobre a verdadeira aprendizagem da profissão.
Katya, que abandonou o design para estudar comunicação social, partilha uma visão mais ambígua. Reconhece o medo generalizado, mas acredita que muitos professores são, em privado, contra a guerra e defensores de um “jornalismo honesto”. “Eles só estão preocupados com a sua segurança e tentam fazer o melhor que podem”, afirmou. Fora das aulas, continuam a mencionar meios de comunicação rotulados como “agentes estrangeiros”, e, segundo Katya, “as pessoas que ainda querem produzir e apoiar o jornalismo honesto permanecem nas universidades”, embora a profissão esteja hoje “escondida”.
Este clima de vigilância estende-se à vida pessoal. Katya descreveu como jovens jornalistas acabam por apagar referências à profissão das suas biografias online, criar contas falsas e comunicar apenas por canais seguros.
Conscientes das limitações do ensino formal, muitos estudantes procuram alternativas à educação tradicional, recorrendo a formações promovidas por ONG e instituições independentes, como a escola de comunicação social Iskra, o programa de mentoria Blue Capybaras, a Escola de Direitos Humanos Yelena Bonner ou a Escola de Educação Cívica.
Nastya, formada em 2025, abandonou o jornalismo e trabalha agora como designer. “O jornalismo moderno na Rússia já não se alinha com os meus valores”, afirmou, acrescentando que não pretende “ir para a prisão” por ter uma opinião própria.
Katya não tem certeza se vê um futuro no jornalismo. “Idealmente, gostaria de trabalhar com meios de comunicação de investigação ou baseados em dados”, diz ela, “mas tenho medo de ser associada a organizações ‘indesejáveis’ enquanto permanecer na Rússia. Ao mesmo tempo, não quero emigrar e cortar os meus laços com o país ‘até Putin morrer ou a guerra acabar’, pois parece não haver fim à vista”.
Vladimir encontrou um espaço menos arriscado ao trabalhar para um grande meio de comunicação focado no jornalismo económico, “o mundo dos números secos”. “É claro que tudo está de alguma forma ligado à guerra, mas o meu trabalho, em menor grau”, acrescentou.
Kira, por sua vez, pondera cada vez mais a possibilidade de emigrar. “Estou pronta para assumir a responsabilidade pelas minhas palavras, mas não estou pronta para colocar os meus entes queridos em risco ou deixá-los sofrer pelo que faço”, conclui.
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