A invasão russa e o jornalismo de alto risco na Ucrânia
Quatro anos depois da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, o exercício do jornalismo no país continua marcado por riscos extremos. No aniversário do início da ofensiva, assinalado a 24 de Fevereiro, o Instituto Internacional de Imprensa (IPI) e os parceiros da plataforma Resposta Rápida à Liberdade de Imprensa (MFRR) prestaram homenagem aos jornalistas que continuam a reportar a guerra em condições cada vez mais perigosas.
Num comunicado conjunto, as organizações destacam a coragem dos profissionais da comunicação social que continuam a trabalhar no terreno, apesar da diminuição da atenção internacional sobre o conflito. Ao mesmo tempo, recordam os jornalistas mortos durante a cobertura da guerra, sublinhando que estes profissionais “fizeram o sacrifício supremo ao levar notícias sobre a guerra ao público ucraniano e internacional”.
Segundo o mais recente relatório anual de monitorização da liberdade de imprensa, 2025 foi o período mais letal para jornalistas na Ucrânia desde os primeiros meses da invasão em grande escala, entre Fevereiro e Maio de 2022.
Entre os casos registados no último ano estão três mortes ocorridas em Outubro de 2025, na região de Donetsk. O fotojornalista francês Antoni Lallican foi morto a 3 de Outubro num ataque com um drone FPV (first person view). Poucas semanas depois, a jornalista ucraniana Aliona Hubanova e o operador de câmara Yevhen Karmazin morreram num novo ataque com drones russos.
De acordo com a monitorização do MFRR, pelo menos 12 jornalistas ficaram feridos em ataques russos ao longo do último ano.
As organizações alertam que a rápida evolução da tecnologia dos drones tornou o trabalho dos repórteres ainda mais perigoso. Nos últimos meses, vários incidentes indicam que as tradicionais identificações de imprensa deixaram de oferecer protecção.
Pelo contrário, estas marcações parecem estar a ser utilizadas para identificar equipas de comunicação social no terreno, transformando jornalistas em alvos directos.
Mortes, feridos e detenções
Desde o início da invasão em grande escala, 16 jornalistas foram mortos enquanto faziam reportagens na Ucrânia e 62 ficaram feridos, segundo os dados recolhidos pelas organizações de defesa da liberdade de imprensa.
Apesar disso, os responsáveis por estes ataques continuam a actuar sem consequências. Até ao momento, nenhum dos autores destes crimes foi responsabilizado, sublinham os signatários do comunicado.
A repressão contra jornalistas estende-se também às detenções. Actualmente, 26 jornalistas ucranianos permanecem sob custódia russa, a maioria acusada de “terrorismo” ou “espionagem”, acusações consideradas fabricadas pelas organizações internacionais.
Testemunhos de jornalistas libertados descrevem condições de detenção marcadas por maus-tratos e tortura sistemática.
Entre os casos que mais preocupam as organizações internacionais está o da jornalista Victoria Roshchyna, que morreu sob custódia russa em Setembro de 2024 em circunstâncias ainda não esclarecidas.
A morte da repórter reforçou os receios quanto à segurança dos restantes jornalistas detidos pelas autoridades russas.
Redacções afectadas pelos ataques à infraestrutura
Para além dos perigos directos no campo de batalha, os jornalistas ucranianos enfrentam também condições de trabalho cada vez mais difíceis. Os ataques russos às infraestruturas críticas têm afectado gravemente o funcionamento das redacções em várias regiões do país.
Cortes de electricidade, ausência de aquecimento e falta de água corrente tornaram-se problemas frequentes, sobretudo durante os meses de Inverno, quando as temperaturas descem abaixo de zero.
Apesar destas dificuldades, muitos jornalistas continuam a trabalhar para documentar os acontecimentos da guerra e informar tanto o público ucraniano como a comunidade internacional.
Apelos à comunidade internacional
No comunicado divulgado no aniversário da invasão, os parceiros da MFRR reafirmam o seu apoio aos jornalistas ucranianos e apelam a uma mobilização internacional para proteger a liberdade de imprensa no país.
As organizações pedem esforços diplomáticos urgentes para garantir a libertação dos jornalistas detidos pela Rússia e defendem que as violações cometidas contra profissionais da comunicação social sejam incluídas nos mecanismos internacionais de justiça relacionados com a guerra.
Além disso, apelam ao respeito pelo direito internacional humanitário, que reconhece aos jornalistas o direito de acesso às zonas de conflito e garante a sua protecção enquanto civis.
Por fim, as organizações defendem a necessidade de reforçar o apoio internacional aos meios de comunicação ucranianos, incluindo programas de financiamento destinados à reconstrução de infraestruturas mediáticas destruídas durante a guerra.
O comunicado é assinado pelo Instituto Internacional de Imprensa (IPI), pelo Centro Europeu para a Liberdade de Imprensa e dos Meios de Comunicação Social (ECPMF), pela Federação Europeia de Jornalistas (EFJ), pela ARTICLE 19 Europa e pela Free Press Unlimited (FPU).
(Créditos da imagem: Unsplash)