A cobertura noticiosa e a desinformação nos protestos de Los Angeles
O desenrolar dos protestos em Los Angeles contra as rusgas federais à imigração deu origem “a uma cobertura noticiosa permanente e a uma série de publicações enganosas nas redes sociais, incluindo vídeos não relacionados que foram mal identificados ou partilhados fora de contexto”, explica o Instituto Poynter. O PolitiFact analisou várias alegações falsas ou enganosas que surgiram nas redes sociais desde o início das manifestações, a 6 de Junho.
As manifestações começaram após agentes do Serviço de Imigração e Alfândegas dos EUA (ICE) terem realizado rusgas em locais de trabalho, detendo 44 pessoas por alegada violação da lei da imigração. Embora muitos protestos tenham sido pacíficos, registaram-se episódios de violência, pilhagem e vandalismo, levando à detenção de centenas de pessoas pelo Departamento de Polícia de Los Angeles.
Em resposta, e sem o consentimento dos líderes dos estados, o presidente Donald Trump enviou tropas da Guarda Nacional e centenas de fuzileiros navais. Trump alegou, sem provas, que o governador Gavin Newsom e a presidente da câmara Karen Bass teriam financiado manifestantes violentos. “A Guarda Nacional permanecerá em Los Angeles ‘até que não haja perigo’”, declarou Trump a 10 de Junho.
Uma parte significativa da desinformação identificada pelo PolitiFact está relacionada com vídeos fora de contexto ou completamente falsos. Por exemplo, um vídeo de um carro da polícia em chamas, partilhado a 8 de Junho, foi apresentado como recente, mas remonta a 2020, durante os protestos pela morte de George Floyd.
Outro vídeo mostrava veículos militares a circular, interpretado por alguns como “prova de que os fuzileiros chegaram a Los Angeles”, mas tratava-se de imagens captadas a 4 de Junho em Camp Pendleton, antes do início dos protestos, durante uma reunião de militares com familiares.
Algumas pessoas também associaram às manifestações um vídeo em que se ouve uma multidão a gritar “We are Los Angeles!” (em português, “Nós somos Los Angeles!”), quando na verdade correspondia a adeptos do Los Angeles Football Club, antes de um jogo a 18 de Maio.
A desinformação não se restringiu a imagens. Comentários de políticos como Maxine Waters, congressista democrata da Califórnia, foram manipulados. Algumas publicações afirmaram que Waters tinha apelado à concessão de cidadania a todos os manifestantes sem documentos. Contudo, o vídeo completo mostra que Waters apenas defendeu que os imigrantes devem ter oportunidade de contar a sua história e que os EUA devem “dar-lhes consideração para terem cidadania aqui”, mas não fez qualquer referência directa aos protestos.
O governador Gavin Newsom publicou imagens que mostram membros da Guarda Nacional a dormir no chão, criticando Trump por não providenciar condições básicas como combustível, comida ou alojamento. No entanto, utilizadores do X (antigo Twitter) afirmaram que as fotos eram de 2021, durante a evacuação do Afeganistão, com base em informações incorrectas dadas por chatbots de IA como ChatGPT e Grok.
De acordo com o PolitiFact, as fotos foram originalmente publicadas a 9 de Junho de 2024 pelo San Francisco Chronicle, confirmando a sua veracidade e actualidade.
Outro momento de desinformação envolveu, precisamente, Donald Trump. Na madrugada de 8 de Junho, elogiou a actuação e desempenho da Guarda Nacional na rede social Truth Social. Contudo, os meios de comunicação e o gabinete do governador confirmaram que as tropas só chegaram mais tarde nessa manhã, entre as 5h e as 7h (hora da costa leste dos EUA), desmentindo a afirmação presidencial.
(Créditos da imagem: AP Photo/Etienne Laurent - imagem retirada do site do Poynter)