"Durante muitos anos, nas escolas de jornalismo e mesmo nas salas de redacção das empresas jornalísticas ocorriam, de tempos em tempos, discussões sobre os riscos (e possibilidades) da relação entre jornalistas e fontes”, começa por contar Cesar Valente, jornalista, num artigo para o Observatório da Imprensa do Brasil, parceiro do CPI. 

Por “fonte”, entende-se a pessoa ou organização que detém informações relevantes para a construção de uma reportagem. No senso comum jornalístico, permanece uma máxima: “notícia boa é aquela que alguém não quer ver publicada”. E, por consequência, deve o jornalista desconfiar sempre da notícia que alguém insiste em divulgar. 

Os recentes escândalos envolvendo figuras como Jeffrey Epstein, nos Estados Unidos, e Daniel Vorcaro, no Brasil, vieram dar corpo às advertências clássicas dos manuais de ética jornalística, nomeadamente no que diz respeito às chamadas “plantações”, isto é, informações estrategicamente divulgadas com objectivos ocultos. 

Depois de expostos os factos e reveladas as redes de influência, torna-se mais fácil compreender os interesses em jogo. Porém, no quotidiano das redacções, o jornalista enfrenta uma realidade mais difusa. Redes locais, regionais ou mesmo sectoriais apresentam-se de forma fragmentada, dificultando a percepção imediata das intenções por detrás de determinadas declarações ou fugas de informação. 

Como observa Cesar Valente, “julgar o que é pura plantação a serviço de alguma manobra política ou empresarial e o que de facto é notícia importante para os leitores é coisa difícil. Que exige ‘desconfiometro’ bem calibrado”. 

Num exemplo retirado de um manual de ética que ajudou a elaborar, o autor descreve o processo de aproximação entre fontes e jornalistas: “A primeira coisa que um político esperto (ou um empresário atilado) faz é azeitar as suas relações públicas. Trata jornalistas como irmãos de fé, camaradas. Dá palmadas nas costas e oferece presentinhos que, no começo, são até bem inocentes. [...] Porque, se conseguem ter um jornalista tolo ‘na mão’, fica fácil ‘plantar’ as informações do seu (deles) interesse.” 

Fica, então, o dilema: como aproximar-se dos centros de poder para obter informação relevante, sem perder a independência crítica? A resposta não é simples, mas dela depende, em larga medida, a qualidade do trabalho jornalístico. 

A confiança entre fonte e jornalista é essencial. Constrói-se com rigor na publicação e fidelidade às declarações. Porém, como sublinha Cesar Valente, é igualmente fundamental que o profissional saiba avaliar “se está a ser manipulado ou não e em que medida”. Tal capacidade exige experiência, discernimento e um constante exercício de vigilância. 

No entanto, as condições actuais de produção noticiosa nem sempre favorecem esse cuidado. Redacções reduzidas, cargas de trabalho elevadas e supervisão insuficiente têm levado à eliminação de etapas cruciais de apuramento. Em muitos casos, o jornalista já não entrevista directamente a fonte, limitando-se a reproduzir respostas fornecidas por assessorias de imprensa. 

Mais grave ainda é a crescente prática de envio de conteúdos completos prontos a publicar. Como alerta o autor, retomando a máxima inicial, trata-se de um exemplo extremo de informação que “alguém insiste muito para que seja publicada”. Esses materiais são frequentemente utilizados sem alterações e sem qualquer esclarecimento ao leitor sobre a sua origem. 

Neste terreno pantanoso, a credibilidade torna-se o bem mais precioso e também o mais vulnerável. O jornalismo, recorda Cesar Valente, é uma actividade “delicada e repleta de detalhes subtis”, onde cada decisão pode reforçar ou comprometer a confiança do público. 

(Créditos da imagem: Unsplash)