Investigação do Obercom assinala menos interesse pelas notícias
A desinformação nas redes sociais tornou-se uma das principais ameaças aos processos eleitorais em Portugal e em Espanha, segundo um relatório divulgado pelo OberCom – Observatório da Comunicação no âmbito do projecto SmartVote. O estudo, publicado em Março, analisa a circulação de conteúdos falsos em contexto eleitoral nos dois países e na União Europeia, bem como o papel da tecnologia e do jornalismo na sua detecção.
O relatório estabelece as bases de intervenção do projecto, que pretende desenvolver ferramentas tecnológicas e iniciativas de literacia mediática capazes de reforçar a autonomia informativa dos cidadãos e a participação democrática. Entre os objectivos está a criação de recursos baseados em tecnologia para identificar e mitigar a desinformação, incluindo a análise de iniciativas internacionais que recorrem à inteligência artificial para esse fim.
A investigação centra-se particularmente em Portugal e em Espanha, dois países que, apesar de partilharem raízes democráticas semelhantes, apresentam diferenças significativas nas suas estruturas políticas e nos ecossistemas mediáticos. Segundo os autores, essas diferenças influenciam a forma como a desinformação eleitoral circula e afecta o debate público.
O estudo conclui que Espanha enfrenta níveis mais elevados de polarização política e tem desenvolvido respostas institucionais mais fortes para combater a desinformação. Em contraste, Portugal continua a apresentar um ambiente político menos polarizado, mas está cada vez mais exposto à instabilidade política e à disseminação de desinformação digital, num contexto de regulação mais moderada.
A investigação destaca, também, o papel das redes sociais na circulação de informação política. Em Espanha, estas plataformas já são a principal fonte de notícias, enquanto em Portugal a televisão continua a ocupar o primeiro lugar, embora os jovens em ambos os países prefiram obter informação através das redes sociais.
Outro dado relevante prende-se com a confiança nas notícias. Em Portugal, cerca de 56% da população afirma confiar na informação noticiosa, enquanto em Espanha esse valor desce para 33%, caindo ainda mais entre os jovens espanhóis, onde apenas 19% dizem confiar nas notícias.
Apesar disso, o interesse pelas notícias tem vindo a diminuir em ambos os países desde 2015, sobretudo entre as gerações mais jovens, que apresentam níveis mais elevados de evasão informativa. Ao mesmo tempo, cerca de 70% da população manifesta preocupação com a desinformação online, embora essa preocupação seja menor entre os cidadãos entre os 18 e os 24 anos.
O relatório identifica ainda um aumento da desinformação eleitoral nos dois países, especialmente durante campanhas legislativas. Os conteúdos falsos circulam sobretudo nas redes sociais e incidem frequentemente sobre alegações de fraude eleitoral, corrupção ou imigração. Segundo o estudo, partidos de extrema-direita, como o Chega em Portugal e o Vox em Espanha, surgem frequentemente associados à amplificação destas narrativas.
As estratégias de desinformação incluem imagens manipuladas, vídeos falsos e sondagens enganosas, frequentemente dirigidas contra candidatos políticos ou sistemas eleitorais. O relatório sublinha, também, a crescente circulação de narrativas transfronteiriças entre os dois países, sobretudo em torno de temas como a imigração.
O projecto analisa, igualmente, o papel da inteligência artificial neste contexto. Um levantamento de 125 iniciativas internacionais, incluindo 52 que utilizam inteligência artificial ou aprendizagem automática, mostra que estas tecnologias estão a ser cada vez mais usadas para detectar e combater conteúdos falsos. Algumas ferramentas actuam após a publicação da desinformação, enquanto outras procuram preveni-la antes de se espalhar.
No entanto, o estudo alerta que o uso de inteligência artificial levanta também questões éticas relacionadas com transparência, liberdade de expressão e privacidade. Por esse motivo, muitas iniciativas combinam sistemas automatizados com verificação humana, procurando apoiar o trabalho dos jornalistas e melhorar a qualidade da informação.
O projecto SmartVote trabalhará directamente com jovens entre os 18 e os 25 anos em Portugal e Espanha, procurando desenvolver competências de literacia mediática e promover uma participação política mais informada num ambiente digital cada vez mais marcado pela circulação de desinformação.
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