Uma investigação promovida pela Amnistia Internacional revelou, recentemente, que vários governos haviam utilizado ferramentas de “spyware” da empresa NSO Group, para obter informações privadas e profissionais sobre cerca de 180 jornalistas.
As conclusões foram retiradas através de uma “lista de possíveis alvos”, que incluía o nome de diversos profissionais dos “media”, além de vários políticos e activistas. Ademais, a Amnistia Internacional detectou “spyware” nos telemóveis de 15 dos jornalistas listados.
Um dos profissionais presentes na lista é Bradley Hope, um jornalista de investigação, que ficou conhecido pelas suas reportagens sobre os Emirados Árabes Unidos (EAU), e que terá sido vigiado em 2018. Contudo, Hope muda, constantemente, de dispositivo móvel, pelo que não foi possível confirmar a presença de “spyware”.
Em entrevista para o Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ), Hope esclareceu que esta não foi a primeira vez que foi alvo de vigilância governamental, já que as suas reportagens contém dados incómodos para muitas entidades.
“Eu estava a participar em algumas reportagens consideradas “problemáticas” em Abu Dhabi. Escrevemos uma série de artigos sobre um caso mediático nos EAU, o que poderá ter incomodado muitas pessoas”.
Contudo, Hope disse ter ficado surpreendido perante a possível intercepção do seu dispositivo móvel, já que estava a realizar a maioria das investigações a partir do Reino Unido.
Julho 21
O mesmo jornalista apontou, neste sentido, que as práticas de espionagem são comuns em diversos países do Médio Oriente, onde os profissionais devem abster-se de utilizar equipamentos pessoais.
“Em muitos países, não há maneira segura de viajar com tecnologia. Se estivermos a fazer reportagens nestes locais, temos de deixar tudo para trás, sem nos conectarmos a nada. (...) Temos de comprar equipamento temporário”.
“Se as reportagens estiverem relacionadas com a liderança desses países, eu diria que é demasiado perigoso fazer cobertura noticiosa no terreno. Seria muito complicado colocar questões aos cidadãos sobre os seus líderes. É uma situação caricata, mas se alguém quiser reportar sobre o governo saudita, deve fazê-lo a partir de Londres”.
Hope considera, assim, que este caso de vigilância veio abrir os olhos de muitos jornalistas, sobre o perigo de utilizar dispositivos tecnológicos comuns.
“A caixa de ferramentas dos jornalistas tem que mudar. Espero que a Apple e outras empresas tecnológicas percebam que os telemóveis têm de ser mais seguros. Mas, para evitarem qualquer risco, os profissionais têm mesmo que tomar medidas extra de protecção -- têm que entrevistar pessoas presencialmente, e deixar o telefone para trás”.
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