As relações de Trump com os media nunca foram famosas, mas ganharam uma dimensão conflitual inusitada neste segundo mandato presidencial.

As mais recentes restrições ao acesso de jornalistas à Casa Branca ou ao avião presidencial Air Force One, vieram reforçar a convicção do pouco ou nenhum respeito de Trump pela missão dos jornalistas, se estes não partilharem, obedientemente e acríticos, o seu discurso profundamente errático e contraditório.

O próprio poder judicial sofre “tratos de polé” quando contraria a vontade presidencial, designadamente, se força a Casa Branca a não impedir a entrada de jornalistas que não seguem o padrão de seguidismo tão do agrado da actual administração americana.

E, não raramente, assiste-se mesmo ao recurso a subterfúgios para não acatar as decisões tomadas por juízes federais.

O confronto permanente com os media e o abuso de linguagem, por vezes já intimidatória, por parte de Trump nos seus encontros com jornalistas - se estes o interpelam sobre temas que lhe desagradam -, é uma ”imagem de marca“ preocupante deste mandato, já nas margens do desafio aberto aos direitos e à letra da Constituição americana.

Percebe-se, entretanto, que os principais media dos EUA esgotaram a paciência perante as diatribes e o arbítrio presidenciais, que ninguém do séquito de Trump parece capaz de travar.

E, prova disso, foi a recente manifestação de solidariedade da CBS, ABC, NBC e da Fox News , na sequência do veto imposto pela Casa Branca, ao suspenderem a sua participação no sistema de partilha de imagens.

Na prática, nenhuma das estações — incluindo a Fox News, a CNN e a MS NOW — transmitiu, em directo,  as imagens da recepção de Donald Trump ao presidente chinês,  Xi Jinping, nos arredores de Washington. 

Se os grandes media parecem estar, finalmente, a despertar para o retrocesso da liberdade de imprensa, desde que Trump voltou à Casa Branca, em contrapartida, um estudo do Pew Research Center - que reproduzimos no essencial neste site -, adensa as dúvidas sobre a posição dos norte-americanos, indiciando divisões significativas em relação até onde pode o governo restringir a actividade jornalística, se estiverem em causa preocupações com a desinformação ou a segurança nacional. Um “bico de obra” …

O estudo baseou-se em dois inquéritos, realizados no primeiro semestre deste ano, com duas amostras junto de 3500 adultos norte-americanos, complementados por grupos de foco. 

São divisões perigosas, sobretudo quando relativizam a liberdade de Imprensa como valor absoluto que, embora genericamente aceite, é menos determinante e taxativo, se ponderado face a outros factores, como a segurança nacional ou o combate à desinformação. E bem sabemos como estes dois factores são voláteis, consoante as circunstâncias e a natureza dos actores em cena.

Se as próximas eleições intercalares de Novembro correrem de feição a Trump e não constituírem um travão ao seu estilo “posso, quero e mando”, é de recear o pior .

E se a liberdade de Imprensa vacilar num país que foi um farol da Democracia, poderemos estar em vésperas de recuperar os pesadelos censórios e ditatoriais em que tantos já se comprazem na Europa e fora dela.