A crise mediática e a crise da habitação
A irresponsabilidade de não raros media e a impreparação de muitos jornalistas jovens, desejosos de afirmação, designadamente, nas televisões, alimentou durante vários dias, em sucessivos e demorados directos, os “acampamentos” improvisados em Lisboa e Porto e, com menos expressão, noutras cidades.
O jornalista não faz perguntas, não contradita o entrevistado perante flagrantes disparates e discursos de cartilha marxista-leninista mal decorada, e faz-se eco acrítico das “deliberações” tomadas em “assembleias populares” – em jeito de “reprise” do Verão quente de 1975 –, cuja representatividade “popular” é inexistente e se restringe àquele círculo de umas centenas de “activistas”, com bandeiras e lenços palestinianos ou de cara tapada, a pretexto da crise da habitação.
Ninguém questionou os “activistas”, por exemplo, sobre a origem das tendas, estranhamente quase todas iguais, como se tivessem resultado de uma encomenda com um fim em vista.
Tão-pouco sobre a logística de refeições, que chegavam vindas não se sabe de onde e preparadas por quem. É evidente que se percebeu, desde o início, a cumplicidade e a interacção de forças de extrema esquerda, desejosas de recuperar na rua o que perderam em votos nas urnas, em sucessivas eleições, com a ajuda de alguns ingénuos e dos chamados idiotas úteis.
Foi ainda penoso ver-se como alguns “activistas” encapuzados vandalizaram, impunemente, a estátua de D. Pedro IV no Rossio, perante a complacência das autoridades e jornalistas presentes.
Tal como nos incêndios florestais de Verão, os “directos” das televisões eternizam-se e os repórteres no terreno actuam como se fossem simples “cabos de microfone”.
Dir-se-á que em Portugal o fenómeno deste “activismo” telecomandado, e que nada tem de espontâneo, não alcançou até agora, no momento em que escrevemos, a dimensão e a gravidade do que se passou em França, de Paris e Limoges, ou em Milão, na Itália.
Mas o fermento é o mesmo e as causas, que se aproveitam da crise de habitação – que é real –, depressa mostraram ao que vinham, com a colaboração de algumas figuras conhecidas das esquerdas radicais e de artistas, aliciados pela visibilidade, que não têm, mesmo quando contratados para as festas do Avante!.
O jornalismo, se quiser vencer a crise de confiança instalada, não pode comportar-se como um simples megafone ao serviço dos manifestantes, ou numa “caixa de ressonância”.
A Europa democrática está numa encruzilhada, em parte por culpa de líderes fracos, acossada por desordeiros internacionais, pagos para semear o caos. Convirá que os media e os jornalistas percebam isso.