“Le Monde” repete Festival Internacional de Jornalismo
No décimo Festival Internacional de Jornalismo (FIJ), entre workshops e conferências, misturaram-se profissionais experientes, estudantes universitários e até alunos do ensino secundário — um público jovem que contraria abertamente a imagem de desinteresse pela actualidade que muitas vezes lhe é atribuída.
Ao Le Monde, Chloé, de 17 anos, estudante num liceu de Bordéus, resume o sentimento partilhado por muitos dos jovens presentes: "é errado dizer que não nos interessamos por notícias. É que não usamos os mesmos métodos que os nossos pais."
Essa diferença nota-se sobretudo nas fontes que escolhem. Ao lado de meios de comunicação mais consolidados, como Le Monde ou Le Canard enchaîné, os jovens citam com naturalidade uma nova geração de veículos independentes — Blast, Mediapart, StreetPress, Reporterre ou Bon Pote —, juntamente com as redes sociais que seguem diariamente. Os meios tradicionais, como os telejornais, não são rejeitados por completo, mas deixaram de ser a principal via de acesso à informação.
Para Coline, urbanista parisiense de 28 anos que participou pela primeira vez no FIJ, o mais importante não é o canal escolhido, mas a diversidade de formatos disponíveis: "não há uma forma certa ou errada de se informar. Os jornalistas fazem um excelente trabalho e documentam-no de várias formas, como acontece com os podcasts." Nino, radialista de 27 anos oriundo do Norte de França, partilha da mesma opinião, defendendo que os meios de comunicação já não podem ficar confinados ao seu formato de origem: "precisam de ser multimédia e estar presentes em praticamente todas as redes sociais."
Nem todas as vozes do festival desmentem o estereótipo. Nathan, de 19 anos, que participa no FIJ pela segunda vez, admite que "a caricatura dos jovens que não se interessam por assuntos da actualidade não é totalmente infundada." Para ele, é preciso um esforço educativo para mostrar às pessoas "como estas questões as afectam de forma concreta".
Tom, professor de engenharia civil em Brives, cresceu a ver o noticiário da noite e a ler jornais todos os dias (hábito herdado dos pais, ambos professores). Hoje, no entanto, confessa um desinteresse crescente pela actualidade, que atribui ao facto de as notícias se terem tornado "demasiado deprimentes". Segundo Tom, é compreensível que as pessoas "fiquem mais felizes quando desligam a TV". Nathan discorda: "o que me deprimiria seria não saber o que se passa à minha volta."
Mesmo entre os que nasceram "com um smartphone na mão", a sensação de sobrecarga informativa é comum, um problema agravado pela crescente presença da inteligência artificial no ecossistema noticioso. Ana, de 22 anos, que trabalha em mediação cultural, resume o cuidado redobrado que isso exige: "agora, é preciso verificar a fonte e a fonte da fonte, para ter a certeza antes de partilhar o que quer que seja."
Para lidar com este excesso de informação, a própria Ana tem uma estratégia: "é preciso descobrir quem são os donos dos veículos de comunicação e distanciar-se dos temas e das linhas editoriais escolhidas." Já Morgane, de 27 anos, propõe uma abordagem mais gradual: "não é necessário interessar-se por todos os assuntos; pode começar por aqueles que o afectam e alargar os seus horizontes aos poucos."
Estas estratégias ganham particular relevância no actual ciclo noticioso, que deverá tornar-se ainda mais intenso no Outono, com a campanha presidencial francesa a ganhar força.
(Créditos da imagem: GSO Parisien)