António José Seguro defendeu esta semana que a imprensa regional continua a desempenhar um papel essencial na democracia, na coesão territorial e no desenvolvimento das comunidades locais, alertando simultaneamente para os desafios colocados pela transformação digital e pela crescente utilização da inteligência artificial no consumo de notícias. 

Na gala comemorativa do centenário do Correio do Minho, em Braga, o Chefe de Estado classificou os jornais regionais como muito mais do que simples órgãos de comunicação. "É um pilar da democracia e um agente de desenvolvimento das nossas comunidades", afirmou. 

Segundo António José Seguro, é através destes meios que os cidadãos "acompanham as decisões locais, conhecem os problemas da sua região e participam de forma mais informada na vida pública." 

O Presidente sublinhou ainda o papel fiscalizador desempenhado pelos jornais regionais: "A imprensa regional fiscaliza o poder, promove a transparência e dá voz a quem, muitas vezes, não encontra espaço nos grandes meios de comunicação. Além disso, valoriza a identidade, a cultura, as empresas e os projectos locais, contribuindo para o desenvolvimento económico, social e cultural das regiões." 

Jornalismo regional, um símbolo da proximidade 

Num contexto marcado pela desinformação e pela proliferação de conteúdos nas redes sociais, Seguro considerou que o jornalismo regional mantém características que o distinguem. 

"Num tempo marcado pela desinformação e pela rapidez das redes sociais, o jornalismo regional continua a ser uma referência de proximidade, credibilidade e serviço público." 

Para o Chefe de Estado, proteger estes órgãos de comunicação é também proteger a democracia. "Defender a imprensa regional é defender uma democracia mais forte e comunidades mais informadas, participativas e preparadas para enfrentar os desafios do futuro." 

Durante a intervenção, António José Seguro recordou o início do seu percurso ligado ao jornalismo local, revelando ter sido fundador e primeiro director de um jornal regional. 

"Quando era muito mais novo, fui um dos fundadores e o primeiro director de um jornal local. Adorei a experiência. A descoberta, a aprendizagem das rotinas ou os contactos que fui estabelecendo, designadamente com o Jornal do Fundão." 

Apesar dessa experiência positiva, reconheceu que hoje enfrentaria dificuldades muito maiores. "Confesso que, se hoje desempenhasse esse papel, viveria momentos de inquietação. Como garantir a sustentabilidade e a continuidade de um jornal regional?" 

O Presidente elogiou ainda a evolução do Correio do Minho, destacando a aposta simultânea na edição impressa e digital, no multimédia, no crossmedia e na aproximação ao mercado galego. 

Os desafios do sector 

Apesar dos sinais positivos, António José Seguro alertou para as dificuldades estruturais que continuam a afectar os meios de comunicação social. 

"Os indicadores que recebemos das tendências de consumo e dos relatórios sobre a actividade dos órgãos de comunicação social são manifestos de incerteza e de angústia." 

Na sua opinião, aos desafios da digitalização e da concorrência das grandes plataformas tecnológicas junta-se agora o impacto da inteligência artificial generativa. 

"Ao difícil processo de digitalização, à concorrência feroz das plataformas globais, juntam-se agora as dificuldades criadas pelos chatbots de inteligência artificial no consumo de notícias." 

Segundo explicou, estes sistemas recorrem ao trabalho produzido pelos meios de comunicação sem encaminharem necessariamente os utilizadores para os sites que produzem a informação. 

Assim, apelou a uma reflexão por parte da indústria e das autoridades nacionais e europeias. "É mais um desafio para uma indústria já em crise. E é mais um alerta. Para os gestores dos órgãos de comunicação e para as entidades públicas nacionais e europeias sobre a necessidade de avaliar os efeitos profundamente negativos que este fenómeno pode gerar." 

Na parte final do discurso, o Presidente advertiu para o impacto que estas transformações podem ter no pluralismo informativo e no jornalismo de proximidade e concluiu defendendo que o valor do jornalismo local dificilmente poderá ser reproduzido pela tecnologia. 

"Está em causa o jornalismo de proximidade com as linguagens e narrativas próprias das culturas locais e regionais, que nenhum algoritmo saberá replicar." 

(Créditos da imagem: Unsplash)