Em 1985, quatro jovens jornalistas reuniram-se em Montpellier, no sul de França, movidos pela convicção de que a liberdade de informar é condição essencial para todas as outras liberdades. E assim nasceram os Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Quarenta anos depois, aquela iniciativa transformou-se numa das principais organizações não governamentais do mundo dedicadas à defesa da liberdade de imprensa e do direito a uma informação fiável e independente. 

Esta organização é reconhecida como de interesse público em França e tem estatuto consultivo junto das Nações Unidas. Está presente nos cinco continentes através de escritórios, secções, representantes e uma vasta rede de correspondentes. 

Os primeiros anos foram marcados por iniciativas pioneiras. Em 1988, a organização lançou o Observatório de Informação, que deu origem ao primeiro grande estudo mundial sobre independência dos media e, mais tarde, ao Índice Mundial da Liberdade de Imprensa, hoje um indicador que avalia o estado do jornalismo em 180 países e territórios. 

Em 1989, a RSF lançou a primeira campanha de patrocínio a jornalistas presos, mobilizando meios de comunicação para “adoptar” repórteres detidos e pressionar pela sua libertação. Um ano depois, sob a liderança de Jean-Claude Guillebaud, a organização abriu espaço ao debate crítico sobre práticas jornalísticas, ajudando a distinguir a missão essencial do jornalismo da lógica mediática. 

A década de 1990 marcou a expansão internacional da RSF. A criação da RSF Internacional, o lançamento do Prémio RSF para a Liberdade de Imprensa e a mobilização pelo jornal Oslobodjenje, em Sarajevo, confirmaram o papel da organização como voz global da defesa dos jornalistas. Em 1995, o Fundo de Assistência nasceu para prestar apoio de emergência a repórteres perseguidos. Hoje, a RSF apoia jornalistas e media em mais de 65 países, auxiliando-os no realojamento de emergência quando ameaçados, atendendo às suas necessidades jurídicas e psicológicas e substituindo equipamentos. 

Uma voz importante na era digital e política internacional 

A partir dos anos 2000, a organização reforçou a sua presença online, alertou para as novas formas de censura digital e obteve estatuto consultivo junto da ONU, além de receber o Prémio Sakharov em 2005. 

Seguiram-se acções emblemáticas: o protesto contra os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2007; a campanha pelos reféns franceses no Afeganistão; a defesa do jornalista turco Can Dündar; e a luta pela adopção da Resolução 2222 do Conselho de Segurança da ONU, dedicada à protecção dos jornalistas em zonas de guerra. 

A partir de 2017, a RSF lançou projectos estruturantes para combater novas ameaças à informação: o projecto Histórias Proibidas, a Declaração Internacional sobre Informação e Democracia e, em 2019, a Iniciativa de Confiança no Jornalismo (JTI). Até 2025, cerca de 2400 órgãos de comunicação social em 126 países utilizaram a norma JTI para avaliar os seus esforços em matéria de transparência, ética e responsabilidade, bem como a robustez dos seus processos editoriais. Destes, 830 publicaram o seu relatório de transparência e 130 obtiveram a certificação JTI. 

Ao mesmo tempo, campanhas como #HoldTheLine para apoiar Maria Ressa, a evacuação de jornalistas afegãos após Cabul ter caído nas mãos dos talibãs, a criação de Centros de Liberdade de Imprensa na Ucrânia ou a Carta de Paris sobre IA confirmaram o papel da RSF como força de acção e inovação num cenário mediático em rápida transformação. 

Os últimos anos foram marcados por novos desafios e avanços históricos. Em 2024, a RSF venceu um caso decisivo no Conselho de Estado francês, obrigando o regulador a aplicar critérios de pluralismo e veracidade aos canais de informação. No mesmo ano, lançou o serviço de satélite Svoboda, que rompe o bloqueio informativo e leva jornalismo independente a milhões de lares russófonos. 

Após o falecimento de Christophe Deloire, director-geral desde 2012, a organização homenageou o seu legado, prosseguindo com iniciativas como o apoio às rádios comunitárias no Sahel e o lançamento, em 2025, do Monitor de Publicidade, dedicado a revelar os mecanismos da propaganda global. 

40 anos depois, a missão prossegue 

Em 2025, as comemorações das quatro décadas da RSF incluem o festival “Informar o Mundo de Amanhã”, uma grande exposição internacional e um álbum fotográfico realizado em parceria com o mítico Studio Ghibli. 

Como recorda o director-geral, Thibaut Bruttin: “Durante 40 anos, a RSF defendeu uma ideia simples, mas essencial: sem liberdade de imprensa, não há liberdade nenhuma. Cada jornalista libertado, cada lei alterada e cada palavra publicada apesar do medo é uma vitória colectiva.” 

(Créditos da imagem: Repórteres Sem Fronteiras)