Não vale a pena “esconder a cabeça na areia”…
As consequências do emagrecimento continuado das redacções, que tem vindo a agravar-se em Portugal, contribuindo para tornar mais precário o exercício do jornalismo, estão plasmadas num relatório recente da Cision - empresa multinacional especializada na monitorização dos media –, no qual se apurou que a escassez de recursos foi um dos desafios que mais progrediu entre 2025 e este ano.
O relatório, intitulado “Estado dos Media 2026”, baseado em respostas de 1899 jornalistas de 19 mercados, incluindo Portugal, concluiu que o sector atravessa uma fase marcada por pressões simultâneas sobre a credibilidade da informação, a sustentabilidade económica das redacções e a transformação tecnológica impulsionada pela Inteligência Artificial.
Trata-se de um estudo que passou relativamente despercebido, como, aliás, vai sendo costume. E, no entanto, é um documento importante, quer pelo diagnóstico feito, quer pelos problemas elencados.
De facto, o documento revela que as redacções estão sob uma pressão sem precedentes, transformando as equipas de comunicação corporativa em parceiros essenciais, desde que saibam como abordar os profissionais de informação.
Compreende-se, assim, melhor, a preocupação de empresas e organismos oficiais em manter activos gabinetes de comunicação ou assessorias de imprensa, que captam cada vez mais jornalistas, insatisfeitos ou mal pagos, que abandonam as redacções, a título transitório ou definitivo.
Entre as conclusões apontadas no relatório figura à cabeça a desinformação, quando 50% dos jornalistas inquiridos indicam o rigor, a verificação de factos e o combate à desinformação como o principal desafio da profissão na actualidade.
Logo a seguir aparece a escassez de recursos, apontada por 49% dos profissionais, que destacam a redução de orçamentos, cortes de pessoal e o consequente aumento na carga horária de trabalho.
Depois, é a fragmentação e a concorrência, com os profissionais a enfrentarem dificuldades para reter a atenção do público, concorrendo, directamente, com criadores de conteúdos independentes e ferramentas de Inteligência Artificial.
Pior: o trabalho do jornalista assenta, cada vez mais, em fontes externas. Devido à falta de tempo e meios, 66% dos jornalistas reconhecem depender, directamente, dos conteúdos enviados pelas agências de comunicação (comunicados de imprensa, propostas de artigos e media kits) para gerar ideias de histórias.
Ou seja: é o “jornalismo sentado” e preguiçoso, sem iniciativa própria nem rasgo.
Os resultados desta prática são desastrosos e estão à vista: telejornais que seguem os mesmos alinhamentos, agora à mistura com conversas paroquiais de comentadores para preencher “tempo de antena”, especialmente, nos canais de temáticos de informação nas TVs.
Adicionalmente, o recurso à IA. Embora 43% dos inquiridos considerem que gerir o impacto da Inteligência Artificial é um desafio, apenas 21% dos jornalistas admitem nunca ter usado IA no seu trabalho habitual. A maioria já a utiliza para tarefas de suporte.
Um relatório, portanto, que não podia ser mais oportuno e que conviria não ser ignorado e ser lido por jornalistas e por empresários de media. Apesar de disponível, quantos o terão lido ou tencionam fazê-lo?
Esconder a “cabeça na areia” é, infelizmente, uma atitude recorrente. E quando os leitores, ouvintes ou telespectadores migram para outras plataformas, a culpa nunca é de ninguém e pede-se – ou exige-se - ao Estado que compense com subsídios os défices de exploração, em empresas falidas ou à beira da falência. Ou aos mecenas de boa vontade…