As redacções de todo o mundo enfrentam desafios significativos na adaptação a um ecossistema mediático cada vez mais marcado pela abundância de conteúdos, pela transformação digital e pela integração da inteligência artificial. Esta é uma das principais conclusões do Future Newsrooms Study 2026, relatório apresentado durante o 77.º World News Media Congress, e desenvolvido pela FT Strategies em parceria com a WAN-IFRA, com o apoio da Arc XP. 

O estudo procurou responder a uma questão central: como podem as organizações de media definir, proteger e operacionalizar o seu valor editorial numa era de produção massiva de conteúdos? Para isso, recolheu contributos de 448 profissionais de 86 países, incluindo líderes editoriais e executivos de redacções de diferentes dimensões e modelos de negócio. 

Execução da estratégia continua a falhar 

Uma das conclusões mais relevantes do relatório prende-se com a dificuldade das organizações em transformar a estratégia editorial em práticas concretas. Embora a maioria das redacções afirme possuir uma estratégia definida, apenas 32% apresentam um alinhamento estrutural entre os objectivos estratégicos e a operação diária. 

Por outro lado, 25% das organizações admitem funcionar de forma predominantemente reactiva, orientando as prioridades editoriais em função dos acontecimentos do momento, enquanto 42% operam com um alinhamento considerado “laxo”, onde a estratégia existe, mas as decisões quotidianas continuam fortemente dependentes da autonomia dos editores. 

O estudo revela ainda que as redacções que realizam revisões regulares do seu portefólio editorial e descontinuam iniciativas de baixo impacto apresentam melhores resultados financeiros. Metade dessas organizações registou crescimento orçamental, comparativamente a apenas 28% das que raramente avaliam os seus projectos. 

Apesar da crescente fragmentação das audiências, 64% das redacções continuam a produzir conteúdos para um canal principal (como website, televisão ou imprensa), adaptando-os posteriormente para outras plataformas. Apenas 21% começam o processo editorial a partir das necessidades identificadas das audiências. 

A relação com o público constitui outro dos grandes desafios destacados pelo relatório. Os dados mostram que os jornalistas continuam a dedicar a maior parte do seu tempo às tarefas tradicionais de produção de conteúdos. 

Em média, 38% do tempo de trabalho é dedicado à escrita, edição e publicação de notícias, enquanto apenas 11% é investido em actividades pós-publicação, como interacção com comunidades, resposta às audiências e análise de desempenho. 

No entanto, as prioridades para os próximos anos apontam para formatos que privilegiam a explicação, o contexto e o envolvimento dos leitores. Cerca de 79% das redacções planeiam aumentar a produção de vídeo de curta duração, 74% pretendem reforçar os conteúdos explicativos (explainers) e 72% apostam em textos aprofundados. 

Também os conteúdos visuais e interactivos (63%), os eventos ao vivo (51%) e as newsletters (51%) surgem como áreas de investimento prioritário. 

Segundo o relatório, o jornalismo que fortalece a confiança pública não se limita a informar, devendo igualmente explicar, contextualizar e criar espaços de participação para as comunidades. 

Inteligência artificial enfrenta barreiras culturais e de competências 

A adopção da inteligência artificial surge como uma das áreas onde se verifica um maior desfasamento entre ambição e capacidade de execução. 

Apenas 14% dos líderes editoriais afirmam ter elevada confiança de que as ferramentas tecnológicas actualmente disponíveis nas suas organizações estão preparadas para responder aos desafios futuros. Em contrapartida, 20% dizem não ter qualquer confiança na adequação das suas infraestruturas tecnológicas. 

Os principais obstáculos à adopção da IA identificados pelo estudo são a falta de competências internas (61%), a resistência cultural e o cepticismo dentro das organizações (52%) e a ausência de casos de uso claros ou de orientação estratégica (45%). 

Mais de metade das redacções (57%) não possui qualquer representação especializada em inteligência artificial integrada nas equipas editoriais. Em contraste, entre as organizações que contam com equipas de IA directamente inseridas nas redacções, quase metade reporta elevados níveis de literacia e utilização destas tecnologias. 

A principal métrica utilizada para avaliar o sucesso da IA é a poupança de tempo, referida por 42% dos inquiridos. Apenas 9% avaliam o impacto da tecnologia nas receitas e 10% medem o seu efeito no aumento da produção de conteúdos. 

Competências insuficientes para os desafios futuros 

O relatório alerta igualmente para uma lacuna crescente ao nível das competências profissionais. Embora 55% das redacções considerem que dispõem actualmente das capacidades necessárias para cumprir os seus objectivos, esse valor diminui para 39% quando os líderes projectam as necessidades para os próximos três anos. 

A situação é agravada pelo facto de 61% das organizações não possuírem programas estruturados de formação. Entre as redacções que pretendem desenvolver modelos de jornalismo inspirados nos criadores digitais (creator-style journalism), 68% reconhecem ainda não ter desenvolvido as competências adequadas. 

As áreas consideradas mais importantes para o futuro incluem jornalismo computacional e utilização de inteligência artificial, envolvimento e análise de audiências, produção multimédia, especialização temática e competências de gestão e negócio. 

O que distingue as redacções mais preparadas? 

A análise identifica cinco características comuns às organizações melhor posicionadas para enfrentar a transformação do sector. 

Entre elas destacam-se o alinhamento consistente entre estratégia e operação editorial, a revisão contínua do portefólio de produtos, a integração da inteligência artificial nas equipas, a aposta em programas estruturados de formação e uma abordagem centrada nas necessidades das audiências. 

(Créditos da imagem: America's Newspapers)